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A Utilidade do Inútil - Nuccio Ordine


A Utilidade do Inútil, do autor italiano Nuccio Ordine, publicado pela editora Zahar é como seu subtítulo diz um manifesto em prol da defesa das atividades inúteis. O título pode soar estranho aos ouvidos, o oximoro ( figura em que se combinam palavras de sentido oposto que parecem se excluir mutuamente, mas que, no contexto reforçam a expressão) que ele evoca é a pedra central do livro, e fazia tempo que não lia um livro tão repleto de verdades que iam de encontro as minhas crenças, ética e moral de vida.

A primeira coisa que é preciso compreender é que aqui o inútil se refere a tudo aquilo que não tem um fim utilitarista, ou seja, gere lucro. A utilidade dos saberes inúteis contrapõe-se radicalmente à utilidade dominante que tem um interesse apenas econômico, e com isso está aos poucos sufocando as disciplinas humanas, as línguas clássicas, a educação, as memórias do passado, a livre pesquisa, a arte, a fantasia, o pensamento crítico e o horizonte civil que deveria inspirar a conduta humana.

A partir deste pensamento uma ferramenta vale mais que um quadro, uma sinfonia ou poesia, em vista que compreender o uso e utilidade de um martelo por exemplo é fácil, já compreender a utilidade das manifestações artísticas demandam mais tempo e conhecimento.

Para engrossar sua tese Ordine evoca ao longo do livro grandes filósofos, pensadores e escritores não só falando de suas obras como também se referindo a citações e pensamentos  a respeito do inútil que já ocupa a mente de filósofos desde a época grega. Seu ensaio é dividido em três partes, sendo a primeira parte a útil inutilidade da literatura, a segunda os efeitos desastrosos pela lógica do lucro no campo da educação, da pesquisa e das atividades culturas, e por fim na terceira parte são releituras de clássicos como exemplos elucidativos de seus efeitos na dignidade humana, no amor e na verdade.

"um mundo sem literatura se transformaria num mundo sem desejos, sem ideais, sem obediência, um mundo de autômatos privados daquilo que torna humano um ser humano: a capacidade de sair de si mesmo e de se transformar em outro, em outros, modelados pela argila dos sonhos" ( Mario Vargas Llosa, pág.20).

Ordine acredita que a literatura pode assumir uma forma de resistência ao mundo capitalista que visa apenas lucro e egoísmo, já que sua existência chama atenção para a gratuidade e para o desinteresse, valores que são contra corrente atual. Em seus breves textos sobre autores, por exemplo, Charles Dickens é citado como o autor que melhor demonstrou a guerra declarada a fantasia em nome dos fatos e do utilitarismo.