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O Mundo Invisível Entre Nós – Caitlín R. Kiernan


Apesar de ainda não ter lido nenhuma das obras dessa autora (a Darkside também publicou “A Menina Submersa), sempre escutei maravilhas de sua narrativa e sua forma de escrita única, que consegue conquistar a todos com o seu talento com as palavras. Sendo assim, resolvi começar por “O Mundo Invisível Entre Nós”, que é uma compilação de contos de Kiernan publicados entre 1993 e 2004, sendo os contos mais aclamados, textos raros, e sua primeira novela Sci-Fi.
O livro é dividido em duas partes, a primeira chamada de Mundo I, traz os contos escritos no período de 1993 a 1999. E a segunda parte, denominada Mundo II, traz os contos escritos entre 2000-2004, fazendo com que facilmente sejamos capazes de ver como o seu estilo de escrita foi amadurecendo, assim como seus pensamentos e técnicas.
Em todos os contos, temos uma mistura de horror com elementos fantásticos, fazendo com que a gente não consiga desgrudar os olhos das páginas. Os contos tratam de temas bem variados, alguns são mais fáceis de entender, outros encontrei um pouco de dificuldade. Talvez por não estar acostumada a ler obras do gênero, já que saí um pouco da minha zona de conforto com essa leitura – gosto muito quando tenho a oportunidade de fazer isso e curto a experiência.

Os enredos são bem rico de detalhes, tanto quanto de variedades de criaturas e mitos. Tem até uma releitura peculiar de A Pequena Sereia e outras referências. A escrita da autora é envolvente, descritiva e nos faz mergulhar nos cenários e situações de uma maneira bem vívida.



A edição da Darkside como sempre está impecável e lindíssima. Tem Capa Dura com acabamento em Soft Touch e insetos em detalhes na cor dourada, assim como o título, que só aparece na quarta capa. A folha de guarda é uma das mais bonitas que já vi e o miolo é todo trabalhado com ilustrações de insetos e suas anatomias que combinam com as ilustrações da capa, que por sinal está magnífica. Para fechar com chave de ouro, o corte das páginas também é dourado.





A Menina Submersa - Caitlín R. Kiernan

Esse ano sem querer querendo só tenho escolhido livros com personagens com distúrbios psicológicos, e quando peguei A Menina Submersa, da autora Caitlín R. Kiernan publicado pela editora Darkside eu não imaginava onde estava me enfiando!

India Morgan Phelps é uma jovem que vive sob uma condição bastante única, diagnosticada com esquizofrenia ela parece ter desenvolvido um mundo a parte do que as cercam e diferente do esperado. Depois de uma carona inusitada seu mundo já frágil e quebradiço começa desmoronar mais rápido do que ela pode controlar.

Eu não sei como é ser uma pessoa esquizofrênica do ponto de vista da experiência, estudei sim esta condição na universidade, mas viver em primeira pessoa não é uma experiência que eu tenha. Entretanto através da narrativa em primeira pessoa de Kiernan eu consegui simular com muita riqueza como deve ser. Que jaula de loucura! O livro se propõe a ser um livro de memórias realizado através de três linhas da protagonista, temos as memórias propriamente ditas narradas que são questionadas e discutidas com a Imp  (Imp é o apelido de India, ou seja, ela conversa consigo mesma enquanto escreve em sua máquina de escrever), e por fim a India que não faz ideia da verdade a cerca do que aconteceu em sua vida. Pareceu confuso? Porque de fato é!

As memórias se confundem, ora mudam de tempo, ora sequer aconteceram, e não espere descobrir a verdade a cerca dos fatos. Isto não é importante. Para trama fazer sentido você deve realizar uma leitura subjetiva, observar a fala desconexa e deve ordenar os fatos e tentar compreender, nada simples ou pronto. Chegue a suas próprias conclusões, e amarrações. Terminei com poucas certezas, mas com os pontos de fixação da protagonista muito bem explorados.

O nome do livro vem de uma das obsessões de Imp, o quadro A Menina Submersa, além deste ela também têm outros temas de fixação como o conto da chapeuzinho vermelho e seu autor, sereias, lobos, corvos negros, números e por fim Eva C. a mulher nua que ela dá a carona e que muda tudo na sua vida. Tudo surge frequentemente e repetidamente. Ela enxerga em tudo estes itens, e chega a ter pastas com dados sobre estes temas. O livro acaba focando muito em Eva que é responsável pelo seu surto.

A questão de gênero e identidade sexual acaba sendo trabalhada também já que ela namora uma transexual, Abalynn (outro nó de fixação da mesma), e alguns diálogos correm nesta direção. Ela é bem resolvida quanto a sua orientação sexual, e nunca chega a ter crises quanto a isto.

O fato de sua mãe e avó também terem sido esquizofrênicas e ambas terem se suicidado já marcam sua estória, que ela diz ser uma estória sobre fantasmas. Não só de pessoas mortas, mas de pessoas que ressoam para sempre dentro delas, como fantasmas que assombram mesmo.

Imp é uma leitora ávida, assim são abundantes as citações a livros e trechos de poesias. A narrativa ganha um ar epistolar já que dentro dela tem dois contos de Imp, uma carta e reportagens. Tudo fruto da sua pesquisa obsessiva. A arte tanto através da música quanto de obras plásticas também são evocados com bastante frequência.

A leitura é muito desconfortável e nos tira de qualquer zona de conforto, já que nos imerge na loucura pura sem nos deixar um ponto de respiro ou um minuto de calmaria. Tudo é sob o olhar e a mente de Imp, logo tudo é distorcido sob sua ótica.