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Um Amor de Sete Vidas - Sérgio Chimatti

Desde muito pequena eu nunca consegui ver desenhos ou filmes onde animais eram protagonistas e sofriam, seja pela morte de um personagem, seja pelas situações da narrativa. Com isso nunca assisti ao Rei Leão, por exemplo, ou aqueles filmes de sessão da tarde com cachorros. O tempo passou e eu continuei assim, evitando livros com animais, até que resolvi ceder ao que eu imaginava ser um livro com um gato protagonista. Um Amor de Sete Vidas, escrito Sérgio Chimatti, e publicado pelo selo Academia parece mas não esse tipo de estória.

Cristiana é uma gótica apaixonada por gatos, ela e seu primo compartilham esse amor e adotam mais gatos do que podem cuidar. Diego no entanto é alcoólatra e não tem conseguido contribuir para cuidar de seus bichinhos. Ambos compartilham uma estória, não sabem quem são seus pais, e nem como morreu a mãe de Diego. Mas a vida destes dois jovens não é o que parece, e está para mudar radicalmente quando a morte aparece muito de perto.

Estou muito familiarizada com romances espíritas, e gosto de uma linha eu diria mais densa e direta, sem romance ou atenuantes. Chimatti realizou sua narrativa em terceira pessoa com as mesmas características de uma romance espírita, mas sem um espírito narrando (mas imagino que com certeza inspirando) ou que seguisse um destes extremos comuns, nem temos uma estória açucarada como uma Zíbia Gasparetto, nem chegamos ao umbral de muitas obras do Robson Pinheiro. Na verdade a mistura que ele criou neste volume é extremamente interessante e acessível.

Desde como atuam os mentores espirituais aqui chamados de anjos, até como estão os espíritos que não partiram para colônias ou até zonas umbralinas, passando por capacidades psíquicas do ser humano e de animais. É possível encontrar referências da umbanda, kardecismo e até viagens astrais na narrativa. Essa mistura cria uma visão muito rica e completa do que pode ser visto e vivido no astral e na realidade de quem perde alguém ou passa a estudar a espiritualidade.

A protagonista Cristiana é uma gótica com 27 anos que trabalha com o um site de vendas de artigos góticos e esotéricos, mas que passa a maior parte do sue tempo cuidando de seus mais de cinquenta gatos. Achei extremamente interessante Chimatti atribuir esta cultura a personagem, e mas que ela mesmo mais velha e sofrendo preconceitos por conta de sua escolha persistisse nela, não cedendo a sociedade. Minha única objeção quanto a personagem é que ela tem um discurso muito infantilizado e feliz, soando muitas vezes artificial e forçado. Talvez alguém conheça alguém como ela, mas eu não achei autêntico. Isso também acontece com alguns outros personagens, e me causou desconforto.



Magia de Papel - Magia de Papel #01 - Charlie N. Holmberg


É sempre bom ver novas editoras nascerem e lançarem livros interessantes. Quando vi a primeira vez o livro Magia de Papel, da autora Charlie N. Holmberg, também tive conhecimento do nascimento da editora Passaporte. Mais uma editora para trazer livros para o mercado, o que é sempre bom já que quanto mais opções melhor para todos!

Ceony Twill é uma aprendiz, seu maior sonho era poder enfeitiçar o metal, mas o destino quis que ela acabasse como dobradora de papel. Inconsolável ela segue para casa do Mago Emery Thane, seu futuro tutor. Thane é tudo o que ela não esperava jovem e esquisito, além de muito bondoso. Quando já estava se acostumando com as magias com o papel uma visita inesperada coloca a vida do mago em risco, e sua jovem aprendiz parte determinada em salvar a vida do mago.

Eu não tinha exatamente expectativas com relação a este livro, mas por tratar-se de um livro que envolve magia eu esperava alguns clichês dentro do tema. Mas nada disso aconteceu, o sistema mágico que a autora criou é diferente de tudo que eu li até hoje. Sua narrativa em terceira pessoa é toda focada nas ações e pontos de vista de Ceony. Logo o desenvolvimento acaba focado na ação, não temos uma estória introdutória cheia de explicações de como este mundo funciona.

O que é explicado é que existem magos que se especializam em determinados materiais como vidro, papel, plástico, aço, etc, qualquer material que tenha sido criado pelo homem. E para tornar-se mago você frequenta uma escola, Instituto Tagis Praff de Vocações Mágicas, e posteriormente passa por um estágio com um mago da área que quer se afiliar, área essa que não pode mudar posteriormente. Infelizmente foge ao livro como é a relações dos magos com a sociedade, no caso a estória se passa na Londres do século XIX. Também não é dito se todas as pessoas tem vocações mágicas ou não. A única coisa muito clara é que os magos de papel são pouquíssimos e não são muito bem visto, já que aparentemente a magia de papel parece desinteressante.

Ceony começa o livro muito chata já que está extremante emburrada em não se filiar ao elemento que desejava, acha que sua vida com o papel será extremamente desinteressante. Aos poucos ela vai aprendendo algumas magias, e quando parte na missão de resgate para salvar o mago Thane ela compreende a dimensão da magia em que está envolvida. Assim como também acaba descobrindo coisas a cerca de si mesma e de seu próprio passado.

Thane é um homem interessante com um passado desconhecido que acaba descortinado em detalhes na missão de Ceony. Nesta jornada a aprendiz acaba presa em um local onde conhece muitas estórias de vida do mago. Devo dizer que este trecho toma muito tempo do livro, é interessante, mas me cansou um pouco, acho que deveria ter sido um pouco mais dinâmico, não que a autora se demore em descrições ou detalhes, mas o tempo se estendeu além da conta neste local.

A vilã da trama é bastante cruel e está envolvida com um tipo de magia proibida, ela é uma excisora, ou seja, usa carne humana para realizar magias. Não demonstra sentimento ou empatia com ninguém, mas não ficou muito claro porque ela acaba fazendo esta escolha para sua vida, uma vez que era envolvida com uma pessoa boa em seu passado.



Sol da Meia-Noite – Crepúsculo #05 – Stephenie Meyer


Na época em que Crepúsculo saiu nas livrarias eu quis imediatamente ler, pelo simples fato que sou fã de vampiros e de Anne Rice. Confesso que na época o primeiro livro mexeu comigo, mas o segundo volume foi ódio mortal, mesmo assim segui até o fim meio de saco cheio de tanto drama e alguns absurdos hehehe. Não fazia ideia que Sol da Meia Noite iria sair até que me deparei com ele, e pense porque não? Afinal quem vai narrar é um vampiro, vai ser mais true não? É não exatamente não Sra. Stephenie Meyer?!
Em Sol da Meia Noite conhecemos a mesma estória de Crepúsculo, mas sob a ótica do vampiro Edward, desde o seu primeiro encontro, passando por momentos que sabemos que aconteceram, mas não como aconteceram. A narrativa é feita em primeira pessoa, e devo dizer que se achava que a Bella era lamúrias sem fim é porque não conhecia a mente do Edward! Simplesmente não comprei a ideia que Meyer vendeu de que uma vez vampiro e sua personalidade não evolue, visto que a mente e o corpo seguem percursos próprios. Depois de cem anos duvido que alguém continue nos mesmos erros e personalidade. Sim alguns vampiros se tornam mais letais e abandonam qualquer traço de humanidade, outros passam disso para quase humanos, entre tudo isso eles aprendem e mudam, mas o Sr. Cullen? É como um adolescente e desculpa isso não cola!
Outro aspecto que em Crepúsculo já me incomodava e nesse só piorou foi a perseguição de Edward a Bella, chega um determinado ponto da trama que ele ou está com ela, ou vigiando ela através da mente dos outros. Não é isso que chamam de relação tóxica? Ele não consegue respeitar as decisões dela porque ela é uma humana e é frágil, não aceita os sentimentos dela porque ele é um monstro indigno de amor e quer impor todo relacionamento em cima da ideia que ele não é capaz de ser homem ( isso porque me desculpe com Carlisle como exemplo ele devia ser muito diferente).
O livro têm 736 páginas que até caminham bem, mas que trazem páginas e mais páginas de "vou embora", "sou um monstro e vou matar ela" e "o cheiro dela é incrível", é repetição, atrás de repetição. Eu esperava por uma mente mais perturbada no sentido vampírico, como os vampiros mais tradicionais (oi Lestat?!), mas são breves as cenas que eu me via pensando "ah sim ele é um vampiro", a maior parte do tempo ele parece um ser humano imortal um bocado burro. Mesmo a mudança dele de parar de atacar ela e passar a namorar ela foi muito fraca.
Minha impressão sobre Meyer e os vampiros é que ela gosta deles, mas desde que eles não sejam maus, e eu aceito isso, o seriado True Blood, por exemplo, explorou isso muito bem. Me parece que a autora não conseguiu dimensionar a natureza real dessas criaturas, seus dilemas e experiências. Ela sempre fala do ponto de vista de uma humana e nunca senti ela vestido a camisa dos vampiros.


O Ickabog - J. K. Rowling


A última coisa que eu esperava nesse ano, e nesse momento era me deparar com algo inédito da autora J. K. Rowling, mas eis que surge o livro nesse ano que está cheio de surpresas e finalmente alguma boa! O Ickabog foi escrito pela autora dez anos atrás para seus filhos, esta quando se deparou com a pandemi resolveu lançá-lo gratuitamente pela internet em capítulos para entreter as crianças. Os capítulos continuarão disponíveis no site até dia 12 de agosto, e após essa data será lançado oficialmente em 10 de novembro com ilustrações de crianças brasileiras que serão escolhidas em um concurso da editora Rocco.

Cornucópia é um reino feliz governado por Fred, o intrépido, dono de um ego grande e vaidoso que ao lado de seus amigos Lorde Cuspêncio e Lorde Palermo passa seus dias caçando. A rotina seguia seu curso até que um lenda que era desacreditada passa a assombrar o Rei. Quando o medo surge as rédeas do certo e errado se perdem, e a sede pelo poder de alguns ultrapassa os limites. Será que este pequeno país será capaz de descobrir a verdade e se salvar da escuridão?

Eu acreditava que um livro com uma abordagem dita infantil não seria longo, menos ainda forte ou complexo. Mas se tratando de quem é eu deveria esperar que algo bom viria, e com isso me dar a certeza de que é uma pena que a autora tenha parado sua carreira de livros infanto-juvenis. Isso porque temos aqui uma estória repleta de mensagens, com detalhes muito peculiares e um ser inédito!

Enquanto eu lia esperava algo como a repetição característica dos contos de fadas, mas isso não aconteceu, ao contrário logo no início temos mortes, alias elas são muitas o que faz com que talvez a leitura não seja para crianças tão pequenas (embora eu ache que quanto mais cedo uma criança entra em contato com esse tema na fantasia, mais fácil é quando acontecer na realidade).  Os personagens têm personalidades marcantes e bem traçadas, que fazem com eles sejam interessantes e alguns deles extremamente irritantes.

Os vilões são o típico caso de pessoas que subestimam a inteligência das pessoas, e são bem feitos porque me despertaram raiva do começo ao fim. Fazem qualquer coisa da mais cruel, a mais burra ou absurda para conseguir ouro e poder. E que bela confusão eles fazem nesse país onde tudo já funcionava bem! Paralelos com alguns países na atualidade ou políticos de um certo partido burro são inevitáveis rs!



A Canção das Águas - Jornada das Águas #01 - Sarah Tolcser

Ah fantasias o que eu faria das minhas leituras se não fossem vocês para trazer a magia para minha vida?! Devaneios a parte a fantasia que ocupou minhas leituras nos últimos dias foi A Canção das Águas, da autora Sarah Tolcser publicado pela Plataforma 21.

Caroline Oresteia trabalha no rio com seu pai, gerações de sua família trabalham pelas terra fluviais e ouvem o deus do Rio. Caroline ainda não recebeu o chamado, mas seu pai sempre diz que no momento certo ela saberá. Após um ataque estranho a alguns barcos seu pai acaba preso quando se nega a cumprir um missão suspeita, a jovem resolve que fará a missão no lugar do pai para soltá-lo. Ela deveria entregar um caixa misteriosa sem abri-la, mas o que parecia mais uma entrega se torna uma questão política repleta de perigos que deixarão Caroline diante de dilemas de vida.

Tolcser foi muito feliz na criação do seu universo, é muito original em diversos aspectos, primeiro o local que se passa a trama é um lugar repleto de territórios cercados por rios e nestes rios existe um grande fluxo de pessoas que trabalham em barcas. Depois existem deuses nestes locais, mas que atuam de maneira diferenciada, o do rio por exemplo fala através da língua das pequenas coisas. Por fim, além de um local diferenciado temos seres diferentes, um deles é um tripulante da família Oresteia, um homem sapo, Fee. Mas temos também magos, dragões e etc. É um universo de piratas mas que foge aos clichês do mar.

Carô tem o perfil de menina super poderosa já que mesmo sendo apenas uma adolescente consegue controlar todas as funções dos barcos, e diante de todo o perigo e das sombras de seu futuro parte para o desconhecido para ajudar o pai. Uma vez que ela abre a caixa e descobre seu conteúdo ela mostra sua natureza bondosa e empática. E aos poucos deixa de ser apenas a imediata do pai para se tornar uma capitã, não só de um barco como de seu próprio destino quando descobre novas coisas sobre si.

Ela além de ter a família que trabalha no rio, também tem uma parte da família da mãe que é do comércio, e essa parte é rica, e faz que em alguns momentos ela se veja entre costumes e tradições muito diferentes do dia a dia no rio. Essa família dividida é muito interessante, já que gera pais muito distintos e que não são separados, mas que vivem cada um em seu universo de pertença.

Além disso sua prima deste lado da família, Kenté, foi uma das pessoas que acabam por ajudá-la na missão. Dona de uma personalidade vivaz e empolgada, acaba se juntando a jovem para fugir da rotina e viver uma aventura. Acaba por revelar poderes desconhecidos de todos que a cercam.


A Adorável Loja de Chocolates de Paris - Jenny Colgan

Conheci Jenny Colgan através de A Pequena Livraria dos Sonhos, livro que me apaixonei. Depois não pude resistir ler os demais livros da autora, embora nenhum tenha tido o mesmo efeito do primeiro. A Adorável Loja de Chocolates de Paris acabou de sair, e já corri ler sabendo que seria uma leitura reconfortante no meio da bagunça que estamos todos vivendo. Por aqui ele foi publicado pela editora Arqueiro que tem seguido firme com a série de livros Romances de Hoje.

Anna Trent tem um emprego que soa delicioso, ela é supervisora em uma famosa fábrica de chocolates em uma pequena cidade inglesa, mas depois de um acidente ela se vê sem emprego e com sequelas que não pode contornar. Após semanas internada com sua antiga professora de francês, Anna se vê onde menos esperava: em Paris trabalhando em uma pequena loja de chocolates. Seu paladar jamais será o mesmo, assim como sua vida!

Acho que a pior coisa que pode acontecer com um autor é você ler logo de cara seu melhor livro (na verdade eu não sei se é o caso, mas por enquanto é rs!) e depois ler seus demais livros e nenhum conseguir alcançar seu coração da mesma forma. No caso talvez o fato de o livro bom ser mais recente que os demais explique o fato, ou a temática, o fato é que a loja de chocolates não consegue competir com a van de livros!

Trent é uma mulher de 30 anos que vivia seus dias sem muita ambição ou perspectivas, ela já tinha aceitado que não podia esperar muito de sua vida na cidade que vivia que parecia parada e mofada no tempo. Quando ela inesperadamente aceita ir para Paris ela pressupõe que será expulsa logo, mas o que consegue é não só seu lugar ao sol como descobrir que é dona de talento e poder de fazer aquilo que desejar, desde que saiba o que queira. Assim a jornada da jovem é de auto descobrimento junto a aceitar sua nova condição física, que é provavelmente feia de ver, mas que não limita seus atos como ela acreditava.
Ao mesmo tempo em que acompanhamos a estória no presente de Anna também temos a linha do tempo no passado de Claire, sua professora de francês. Claire também acaba em Paris muito jovem, ela não sabia nada sobre a vida já que era reprimida pelo pai que era reverendo. Ao descobrir uma cidade completamente oposta a sua, ela também se vê como alguém desejável, e sai da cidade luz com uma grande paixão. Sua linha chega até o momento atual quando está enfrentando um câncer terminal.

Thierry é o dono da loja de chocolates, é um chocolatier talentoso, mas é alienado na vida. Perdeu seu grande amor, e se agarra ao chocolates e as comidas para passar seu tempo. Tem uma personalidade vibrante e interessante, mas que poderia ter sido mais explorada já que ele protagonizou cenas divertidas no livro.

Claire foi de garota inocente e ingênua para um mulher que luta pelas suas vontades. Ela se enxerga em Anna, por isso quer proporcionar a mesma oportunidade que teve ao ir para Paris. Seu maior desejo é rever seu grande amor, já que não houve um dia que não tenha se lembrado de Thierry. O amor deles se manteve mesmo diante da distância e do tempo.



O Silêncio da Cidade Branca - Eva García Sáenz de Urturi

Nesses dias de confinamento em casa uma das coisas que eu mais tenho feito é assistir a seriados policiais, desde os mais clichês até os mais desconhecidos, alias sou uma grande fã de seriados do gênero que sejam de origem escandinava =D! Então foi muito natural que minha última leitura também acompanhasse esse gênero. O Silêncio da Cidade Branca, Eva García Sáenz de Urturi, publicado pela editora Intrínseca foi essa leitura.

Em Vitoria no país Basco após duas décadas de uma série de crimes bizarros, o assassino parece ter voltado a ativa justamente quando Tasio Ortiz de Zárate, o homem quem foi atribuídos os crimes anteriores está prestes a sair da prisão. Unai López de Ayala é chamado para resolver os crimes, com um passado marcado pela tristeza, é também obcecado pelos crimes desde jovem. Seguindo seus instintos e determinado a proteger sua cidade este policial vai descobrir os segredos que estão escondidos na cidade.

Fiquei bastante satisfeita com a leitura desse livro uma vez que a narrativa de Urturi é bastante rica e fluída, conseguindo encadear fatos a cada nova descoberta até culminar na resolução do caso que se dá apenas nos capítulos finais. Alternando capítulos em primeira pessoa na voz do agente Unai no presente, e capítulos em segunda pessoa na década de 70, a autora entrega todas as ferramentas para junto de Unai descobrirmos não só quem é o assassino, como quais foram as motivações do crime.

Mais do que narrar crimes, a autora foi muito fiel a cultura basca nos apresentando detalhes dos vilarejos, os costumes tanto de sua mitologia antiga quanto da religiosa cristã, passando por costumes até de alimentação. Assim é possível uma imersão na cultura basca com bastante profundidade, o que até nos faz as vezes esquecer que trata-se de um livro policial, porque ele vai mais fundo. Além disso ela também se ocupa bastante dos personagens, de suas características psicológicas e de suas histórias de vida.

Unai López é um policial jovem que já tem uma carga emotiva muito alta, pois perdeu a esposa grávida dos filhos de forma brutal e a tristeza pela perda ainda é muito presente. Inclusive sua escolha de se transformar em um perfilador criminal vem desse evento. É muito ligado a família, e determinado, o que faz dele um homem inquieto e em constante movimento. Sua inquietação é que o move para além do que é visível, e o ajuda encontrar respostas.

Sua parceira Esti é também sua melhor amiga. Ela já conhece Unai e seus métodos de trabalho, assim sempre o ajuda acobertando seus comportamento não tão bem vistos na corporação. Também tem um passado triste junto de seu irmão. Alba Salvatierra é a subdelegada que ora atrapalha, ora ajuda a dupla, com uma personalidade um pouco duvidosa acaba se alinhando a Unai.






A Garota do Lago - Charlie Donlea


Existem autores que conseguem criar uma força de atração em suas páginas tamanha que ao terminar um capítulo ao invés de você ir dormir você sente a necessidade de prosseguir para saber o que acontece, e isso não seria problema se o próximo capítulo não lhe despertasse o mesmo problema! O autor Charlie Donlea é muito bom nisso, em A Garota do Lago, publicado pela Faro Editorial, mais uma vez ele mostrou que não brinca em serviço!

Summit Lake é uma pequena cidade entre as montanhas e a beira de um lago, um lugar onde famílias procuram para relaxar ou morar sem perigo, nunca houve um homicídio até que Becca Eckersley é encontrada quase morta em sua palafita. Para investigar a morte da jovem, a repórter Kelsey Castle é enviada diretamente de Miami para este refúgio. Mas o que parecia um simples caso se desdobra em uma trama muito mais profunda, que exigirá muito mais de Castle do que uma investigação, ela terá que resolver a tempestade que ainda paira em sua cabeça, superar um trauma para quem sabe descobrir o que aconteceu com esta jovem estudante.

Conhecia a narrativa em terceira pessoa de Donlea com A Garota deixada de Lado, livro que por sinal amei, e por isso vim a ler seu primeiro livro publicado, A Garota do Lago. Nesta primeira publicação seu esquema de escrita já existe, mas é um pouco mais sucinto e direto, embora tenha cenas fortes ele é mais brando e menos aprofundado, sem que isso comprometa o entendimento ou o desenvolvimento da estória. Um ou outro detalhe traria mais emoção a estória, mas não tê-los não chega a ser uma falha.

O capítulos alternam a visão no passado de Becca, com a visão de Castle no presente em sua investigação. A alternância é excelente porque ora um capítulo evoca uma dúvida, ora um capítulo a responde, com uma costura extremamente interessante que prende o leitor a querer saber o que aconteceu. O desfecho em si surpreendeu em partes, devo dizer que acertei o culpado, mas sua apresentação não se deu como esperado. E ao fim tudo que posso dizer é que é triste, muito triste!

Becca é uma jovem estudante de direto que provêm de uma família rica, ela soa como uma pessoa que parece flertar com os homens sem se dar conta que está fazendo isso. Isso porque suas relações culminam em problemas com os homens, mas não porque ela tenha atitudes de fato nesse sentido. Ela é uma personagem um pouco vaga e misteriosa, embora tenhamos capítulos com ela seguimos por muito tempo no escuro do que esperar de seus comportamentos. Ela não despertou muito minha empatia.

Já Kelsey já tem sua estória e personalidade mais marcante, e fica evidente desde as primeiras páginas que ela sofreu algum trauma que ela não conseguiu superar, sequer lidar de frente. Ironicamente o crime em questão a faz se colocar frente a frente com o que viveu, e ela se vê obrigada a lidar de alguma forma com isso. Mesmo diante de um motivo que poderia paralisá-la, ela segue porque sente que precisa ajudar Becca, porque se identifica com a jovem morta.


Todos os Pássaros no Céu- Charlie Jane Anders


Faz algum tempo que não leio um livro que me desperta tantos sentimentos ambíguos ao mesmo tempo, Todos os Pássaros no Céu, da autora Charlie Jane Anders publicado pela Morro Branco até agora não me fez um sentimento definitivo por ele.

Patrícia e Laurence são duas crianças que enxergavam o mundo de forma diferente, mas que mesmo assim tinham um lugar em comum para compartilhar, ela embora com poderes mágicos e ele com talento para ciência não eram bem aceitos pelos que os rodeavam. Ninguém os tolerava e a exclusão social os uniu. Mesmo depois de anos de separação a vida volta os unir, e cada um em seu lugar terão que unir forças para o bem comum.

A narrativa é dividida em quatro livros que são passagens no tempo, a primeira e a segunda parte foram partes muito incômodas para mim, foi terrível ver como os pais destas crianças eram egoístas e ruins para os dois, os pais de Patrícia são péssimos, boicotam a filha de todas as maneiras possíveis e despertam muita raiva (o que pensar de um casal que deixa a filha trancada no quarto uma semana passando comida por de baixo da porta?!!). Tinha vontade de parar a leitura e ir brigar com eles, e olha esse sentimento é raro. Os pais de Lau não ficam para trás, mas parecem mais perdidos do que de fato ruins como os de Patrícia.

Quanto ao estilo de escrita de Anders é fluído e ágil, o livro assim passa rápido e não demorou a correr, mesmo que eu me sentisse perdida em diversos momentos. Charlie tem um jeito próprio de criar sua sequência de fatos que não segue o comum. As passagens de tempo são quebradas e não avisadas, e as vezes o leitor pode se pegar perdido no pedaço que foi subtraído.

Patrícia é uma garota sensível e pura que desde muito pequena consegue falar com os animais e descobre através de um pássaro que era uma bruxa. Este fato a marcou profundamente e desde então tudo que ela quer é desenvolver a magia e encontrar seu lugar ao mundo, já que na escola sofre bullying, e quando digo isso é dos pesados que envolvem inclusive sua irmã. O modo como seus colegas a tratam cortou meu coração, e a passividade da mesma é de se admirar! Com a passagem do tempo, depois que ela vai estudar magia ela passa a ter mais segurança e certeza de seus talentos, mas mesmo assim vive no medo porque de alguma forma ela parece ter poderes que nem seus professores sabem bem como lidar. E sua vontade de salvar a todos é mal interpretada pelos demais bruxos.

Laurence é muito inteligente e não tem dificuldades em criar instrumentos tecnológicos, e isto é tão forte que chega a assustar seus pais. Como todo nerd de estória ele também sofre na mão dos colegas de escola, e assim como Patrícia também não os enfrenta. Essa passividade e conformidade acaba por unir os dois que ora se ajudam, ora se repelem, já que em certos momentos Laurence pensa que se afastar de Patrícia pode melhorar sua reputação.

Junto a esses problemas escolares surge um homem que faz parte de um grupo de assassinos e quer matá-los, ele é a pá de cal para acabar com a vida dos dois que tem suas vidas viradas de cabeça para baixo aos treze anos. Estes trechos da trama não me agradavam em nada, já que ele era um assassino frio e sem muita explicação.

Quando chegamos a fase adulta dos dois jovens fica mais clara a dualidade que a autora quer trabalhar, ciência versus magia. E essa mensagem parece ser uma das que mais marca toda a trama. Mas eu acho que o que mais me marcou é a tentativa desesperada destes seres humanos de encontrar um lugar para existir, para serem eles mesmos sem crítica e sem precisar da aprovação dos que o cercam. Ambos parecem viver todo o tempo no medo, sob pressão, e sem saber o que é ser feliz.


Ordem Vermelha - Filhos da Degradação - Felipe Castilho

Livros são para mim um momento de escape do meu dia. Quando eu estou no meu dia a dia normal eu consigo ler quase todo gênero de literatura sem me afetar, mas quando o mundo está de ponta cabeça como nesse momento da nossa história, eu estou procurando por leituras mais leves, mas desta vez eu me vi com um livro que não me proporcionou um momento de tranquilidade, ao contrário. Em Ordem Vermelha, Filhos da Degradação, do autor Felipe Castilho, publicado pela editora Intrínseca, a leitura foi tudo menos tranquila, não pela sua qualidade, mas pela sua temática.

Untherak é um lugar dominado por uma deusa de seis faces, onde o vermelho é uma cor proibida e todos os moradores servem a deusa de sol a sol. Aelian é um órfão humano que passa seus dias no Poleiro sonhando com o dia que terá sua semi-liberdade, o que ele não esperava é que seu sonho fosse lhe custar tão caro. Após conhecer a Aparição ele acaba junto de companheiros inesperados que junto a ele irão começar uma rebelião.

O universo criado por Castilho é bastante peculiar, sem referências muito explícitas de suas origens. O autor diz nos agradecimentos sobre referências a seus livros anteriores e o folclore brasileiro, mas ao contrário do que é comum acontecer aqui é tudo muito original, e essas alusões são sutis. É tão diferenciado que chega a muitas vezes a ser difícil de compreender certos aspectos, como a moeda utilizada.

Aelian é um jovem que perdeu os pais cedo e se viu sozinho trabalhando de forma dura no Poleiro, local onde falcões enviam encomendas. Quando não está trabalhando ele fica em uma pequena cela. Sempre que pode ele foge pelos telhados, então quando vê a oportunidade de mudar o sistema do local ele agarra a oportunidade. É destemido e leal aos novos colegas.

Ziggy, é um sinfo, uma criatura assexuada com uma sensibilidade diferenciada com uma forte ligação com a natureza. É o integrante do grupo menos letal e mais leve, com uma capacidade de trazer luz nos momentos mais escuros. Harun, é um anão que é um Autoridade (trabalha para deusa), tem uma índole duvidosa já que seu objetivo não é um bem maior, mas o resgate da herança cultural de sua família. Dono de grande força física, é também dono de um humor explosivo.

Raazi, uma kaorsh, tem a capacidade de mudar a cor da própria pele. É uma grande guerreira e luta desde as primeiras páginas pela liberdade de todos. Ela sabe de alguns segredos e mentiras da deusa e planeja que eles venham a tona abalando a lealdade do povo. Venoma é uma mestiça de kaorsh e humano, é letal e desconfiada. Ela junto da aparição fazem muitos estragos pelo Miolo antes de se juntar aos demais.



Todos os personagens tem uma personalidade muito bem delineada e cada raça têm suas características exploradas. Infelizmente por todos eles estarem em uma situação limite acabam tendo suas culturas e costumes perdidos ou abafados, o que é uma pena, pois limita a graça de todas as raças.



Bruce Dickinson: Uma Autobiografia - Bruce Dickinson


Eu não me lembro se em alguma resenha anterior eu citei que sou headbanger, ou seja, ouço metal em diversas vertentes e sou adepta ao estilo de quem curte esse gênero. Para quem nunca esteve entre nós pode soar como baboseira, mas só quem já foi em um show de metal e esteve entre os fãs sabe quanto é incrível ter pessoas com quem você têm diversas coisas em comum. Nesse sentido foi muito natural escolher ler uma biografia de um dos maiores vocalistas de uma das maiores bandas de metal, o Iron Maiden. E aproveitando que a quarentena tem mexido com minhas ansiedades ler Bruce Dickinson: Uma Biografia, escrito pelo próprio Bruce, e publicado pela editora Intrínseca, foi uma companhia excelente para esquecer um pouco o que está ao redor.

Já li algumas biografias, e em geral elas seguem um padrão de nascimento, estudos, relacionamentos e etc. Aqui Dickinson começou sim pela sua infância, mas o modo como ele conduziu sua própria história não seguiu o que eu esperava. Assim que ele começa a estudar não sabemos mais praticamente nada sobre sua família, seus relacionamentos amorosos e amigos. O foco dele é nas disciplinas que ao longo da vida ele estuda, as oportunidades e trabalhos que ele executa e sua relação com a música. Apenas nas páginas finais que ele aborda o câncer que teve e foi a parte mais pessoal sem dúvida que ele abordou. No posfácio ele explica que escolheu tirar a parte sobre relacionamentos porque o livro seria muito grande e que assim ninguém o leria (acho que ele não sabe do que um bookaholic é capaz!!rs)

Com isso talvez pareça que a biografia fique desinteressante, mas não se engane, mesmo sem o que soaria como fofoca, a história de vida deste homem é muito interessante! Isso porque ele é uma pessoa que se arrisca como ninguém a fazer qualquer coisa que alguém ofereça a ele, e veja bem se com isso parece que ele faz o estilo drogas e rock'n'roll, esqueça porque ele faz bem mais o estilo lobo solitário que bebe quieto lendo seus livros. Então se você procura algo mais voltado para esse mundo louco do rock sugiro que você assista o filme do motley crue, porque as vezes eu até esquecia que quem estava escrevendo era o Bruce do Iron Maiden.

Para fãs do Iron Maiden é um livro obrigatório que apresenta o vocalista como ele é em sua essência. Sem dúvida eu jamais imaginaria, por exemplo, que seu primeiro contato com o rock seria através de shows de rock dentro de seu colégio interno que era um tanto estranho eu diria. E menos ainda que ele havia começado a cantar de forma tão espontânea e nada esperada, isso porque ele queria ser baterista, mas sem uma bateria e na falta de um vocalista ele acabou achando que o padre da sua infância que tinha o alertado de sua boa voz seria a validação necessária para se arriscar.






Depois de Você - Como Eu Era Antes de Você #02 - Jojo Moyes


Como Eu Era Antes de Você acabou com meu coraçãozinho quando o li, jamais pensei que me sentiria assim na leitura, mas ele mexeu muito comigo! Ao saber que a continuação, Depois de Você, da autora Jojo Moyes tinha sido lançado pela editora Intrínseca eu me perguntei se teria a mesma reação. Atenção por tratar-se de um segundo volume contém spoilers do livro anterior.

Louisa voltou da Europa depois de tentar superar o luto pela perda de Will, e falhou severamente em apenas viver como tinha sido pedido a ela fazer. Tentando começar de novo ela mora sozinha em Londres e trabalha em um pub, mas sua vida não consegue andar, as memórias não a abandonam, e a tristeza ainda é muito grande. Depois de uma crise ela sofre um acidente ao se assustar no telhado de seu apartamento, um novo homem surge em sua vida, e uma visita inesperada junto com um grupo de ajuda ao luto farão com que ela comece a enxergar luz no fim do túnel.

A narrativa de Moyes continua como em seu livro anterior, realizada em primeira pessoa de forma descontraída e dinâmica, sempre com Lou na narrativa, salvo um único capítulo narrado em terceira pessoa sob o ângulo de Lily. E o único problema que este volume tem, e que seu anterior não tinha, é que em determinado ponto da estória a autora passou tempo demais em lugar nenhum. Muitas páginas poderiam ter sido subtraídas, já que não acrescentam nada a trama, ao contrário acabam cansando o leitor.

A estratégia usada pela autora para retomar a estória de Lou é muito boa, primeiro porque podemos acompanhar uma estória muito realista, onde o final não foi um felizes para sempre, embora Lou tenha acabado de voltar de Paris, tenha um apartamento seu em um dos melhores locais de Londres, ela não consegue superar a perda de Will e mais que isso carrega uma culpa por acreditar que poderia de alguma forma o ter convencido a ficar. Segundo porque a nova personagem Lily surge com um problema que é capaz de criar tensão e gerar movimento para transformação de Louisa, é uma reviravolta inesperada!

Sam, o paramédico, também foi marcado pelo luto e a perda, mas teve outro modo de encarar a vida a partir disto. Ele tenta transmitir isto a Lou, que embora saiba racionalmente não consegue sentir assim em seu coração. Infelizmente o pretendente de Lou embora seja um homem muito interessante não teve destaque suficiente, assim como Lou não conseguia se entregar a ele, a autora parece ter também tido dificuldades de desenvolver o romance dos dois que muito tinham a conversar mas que pouco de fato o fizeram. O desfecho dos dois também não me agradou muito.

Lily, é uma nova personagem que não posso revelar sua origem, é uma adolescente muito chata! Não só porque é revoltada com a vida que tem e pelo que não tem, mas porque é do tipo que gosta de atacar verbalmente as pessoas a troco de nada. Faz uma verdadeira bagunça na vida Lou, mesmo quando ela se dispõe a ajudar, e demora muito a entrar nos eixos. O capítulo que é narrado exclusivamente sobre ela explica um pouco de seu comportamento desviante, e deveria ter sido revelado antes para atenuar a chatice da mesma!

O livro é marcado fortemente pela mensagem de superação de luto, no sentido de que seguir a vida não significa esquecer, deixar de amar, ou ainda amar menos. Significa seguir, viver porque é para isso que nascemos, para viver intensamente cada dia. Neste aspecto o livro aborda de forma muito sincera e honesta, especialmente nos encontros na Igreja que Lou passa a frequentar. Os membros deste grupo são ótimos, e são muito importantes para Louisa rever seu papel diante da morte de Will.


O Filósofo e o Lobo - Mark Rowlands


De vez em quando surgem oportunidades de leituras inusitadas, livros que eu jamais compraria mas que acabam em minhas mãos, e inevitavelmente deixam uma mensagem. O Filósofo e o Lobo, do filósofo Mark Rowlands, publicado pela Objetiva está entre eles, na verdade eu nem sequer sabia da sua existência, e mesmo quando soube o que eu esperava deste livro não foi o que eu li. Surpresas que a vida trás.

Mark era um jovem professor universitário quando se deparou com um anúncio de venda de filhotes de lobo, o que era para ser uma visita descompromissada acabou com um filhote, Brenin, um lobo destruidor de lares que transformou para sempre a vida deste filósofo, a ponto de obras nascerem, e um novo homem surgir. A partir desta relação Rowlands narra sua estória com inserções da filosofia de uma relação que de normal não teve nada, mas que muito tem a ensinar!

Mark era um jovem comum que dava aulas em uma universidade, participava do time de rugbi e de festas com muita bebida e mulheres. Sua vida muda quando ele resolve comprar Brenin, este lobo puro dono de uma personalidade única, isto porque ele não podia ficar sozinho em casa, já que tinha uma tendência a destruir tudo (logo em seu primeiro dia em casa ele comeu a tubulação do ar condicionado). Com isto ele estava em todos os locais que Mark ia, como os jogos do time de rugbi, as aulas na universidade e inúmeras corridas, corridas estas que os dois faziam em grande cumplicidade.

Ao mesmo tempo que o lobo se tornava civilizado, o homem se tornava lobo. Isto porque com o tempo Mark se isolou mais e mais do mundo, a ponto de sair da universidade e se isolar com seus cachorros e Brenin, e só escrever. A relação que ele estabeleceu com o lobo foi muito peculiar, e é narrada em detalhes em primeira pessoa pelo autor, que inicialmente soa um pouco chato, mas a medida que consegue expor seus sentimentos e detalhes da convivência de ambos nos cativa.

"As vezes é necessário deixar que o lobo dentro de nós se manifeste, silenciar a tagarelice incessante do primata." (pg. 17)

O livro é conduzido pelo que Rowlands aprendeu na sua vida com Brenin, organizado em torno das lições que aprendeu, enfocando os acontecimentos relacionados com os pensamentos que o autor queria desenvolver. Inicialmente seu foco se dá muito na diferenciação de lobos e de cachorros, ele explica em detalhes porque embora da mesma linhagem eles sejam distintos em comportamento, e confesso que esta parte me cansou um pouco. Mas uma vez que ele se fez claro, e ele focou na relação dos dois, e trouxe conceitos da filosofia para ilustrar suas conclusões a narrativa ganha graça, e profundidade. Sem que a filosofia canse, já que ele não se demora muito nela.

O conceito que mais me despertou atenção foi o de que os homens são seres temporais que vivem o presente lembrando do passado que já não existe e projetando o futuro que ainda não aconteceu, logo podemos dizer com segurança que raramente de fato vive o presente. O passado que recordamos e o futuro que ainda não aconteceu molda de forma decisiva o aqui e agora. Enquanto que o lobo é um ser do momento, ele não tem passado ou expectativas do futuro, ele vive o momento presente intensamente, e são momentos assim que são para os homens lembrados como momentos bons, mesmo que quando vividos sejam experienciados como ruins.

Para se referir aos seres humanos o autor usa o termo primata, e esta alma símia é gananciosa, pois o importante é ter, já que valoriza em termos do que possui, já para o lobo o mais importante não é possuir, ou quantas coisas ele tem, mas sim ser certo tipo de lobo. Esse discurso do que importa é ser e não ter já é um pouco batido, mas ele o aborda sobre outro enfoque quando evoca o ponto de vista do lobo.

Ao fim do livro é no mínimo interessante perceber quanto o autor se deu conta de que suas lembranças quando vivia apenas com o lobo e suas cachorras tinha um ângulo de matilha, ele praticamente não se lembra dele como indivíduo, apenas como membro desta matilha que o tocou profundamente. E como tudo que transforma o fez sofrer, mas também crescer. Hoje ele é um homem bem sucedido do ângulo capitalista, não bebe mais como antes, e tem uma família, mas carrega dentro de si o que aprendeu, e foi o que compartilhou nas páginas de seu livro, que ora soava como um livro de filosofia, ora como um livro de memórias de um bêbado andarilho.

"Às vezes tenho uma sensação das mais estranhas: eu era um lobo, e agora sou apenas um labrador bobo. Brenin representa para mim uma parte da minha vida que já não existe. É uma sensação ambígua. Fico triste por já não ser o lobo que era. E fico feliz por já não ser o lobo que fui. O mais importante porém é que fui um lobo." (pg. 208)

O filósofo e o Lobo é um relato de uma estória de amor verdadeiro entre um lobo e um homem, onde a troca era genuína e desinteressada, são lições de como viver uma vida mais verdadeira e consciente. É inspirador para transformar, e nos trazer para o presente, não no passado, nem o futuro, o simples presente sem preocupações, apenas com a brisa do dia, um bom prato de comida ou uma corrida sem hora para voltar!




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A Poção Secreta - Diário de uma Garota Alquimista #01 - Amy Alward


Quando o assunto são livros eu gosto de quebrar a cara e ser surpreendida. Porque eu achava que sabia o que esperar do livro A Poção Secreta, escrito pela inglesa Amy Alward, publicado pelo selo Jangada, já que suas primeiras páginas seguiam o padrão infanto-juvenil de fantasia, mas eis que tudo toma um rumo diferente e eis que ele não é o que eu esperava,  pronto essa é a diversão de um bom livro!

Samantha Kemi é uma aprendiz de alquimista que é surpreendida por um pedido inusitado: participar de uma caçada para encontrar uma poção- antídoto que curasse a princesa do Reino de Nova que acidentalmente tomou uma poção do amor e apaixonou-se por si mesma. Ela vê na Caçada Selvagem uma oportunidade para reerguer a loja de poções da família além de orgulhar seus ancestrais. Para fazer sua poção ela terá que enfrentar perigos além das fronteiras de Nova em zonas selvagens, além de uma corporação tecnológica que produz poções sintéticas. Mas seu pior inimigo talvez seja algo que ela jamais imaginou, seu próprio coração, ela será capaz de resistir a ele?

Alward escreveu sua narrativa em primeira pessoa nos capítulos narrados por Samantha, alternados por outros escritos em terceira pessoa sob a ótica da princesa Evelyn. O trabalho gráfico da editora é lindo, as texturas da capa e a diagramação transmitem a doçura do livro. E eis um pequeno engano que isso trás, eu achei que o clima do livro seria assim fofinho e leve, mas eis que existe muita aventura e ação ao longo da narrativa. Muitos lugares são visitados, diversas criaturas surgem como sereias e unicórnios, e tudo menos o óbvio estão entres os parágrafos.

O mundo construído pela autora parece seguir o padrão medieval quando a realeza é evocada, mas não se engane, ao mesmo tempo que tradições que rementem a essa época são narradas temos também a tecnologia com celulares e computadores, mesclados ainda com magia. O que pode até soar bagunçado, mas não é, a autora soube juntar todos estes elementos de forma a parecerem que sempre existiram juntos. Embora ela tenha uma crítica a tecnologia já que esta fez com que poções sintéticas existissem e deixassem de ser orgânicas. Este aspecto é trabalhado através da família Kemi que ainda persiste em sua pequena loja em fabricar estas poções de forma tradicional, e com isso sofre com falta de clientes por ficar para trás.

Zain Aster é o melhor amigo da princesa, e também herdeiro da corporação Zoroaster. E por boa parte da trama não conseguimos saber para que 'lado' ele trabalha, se tem de fato um bom coração que não concorda com os feitos do pai, ou se apenas esta simulando para ganhar a caçada. Esta resposta surge apenas nas páginas finais.

Sam sonha estudar na universidade, mas como única herdeira do conhecimento alquímico do avó, e diante do pouco dinheiro da família, ela aceita ficar trabalhando na loja enquanto todo investimento fica na sua irmã, que é uma talentosa, ou seja, possui magia. Quando a caçada surge ela vê a oportunidade de ganhar dinheiro e ajudar a família, mas mais que isso de sair da loja e conhecer o mundo que tanto anseia. É muito inteligente e inocente, seu pensamento rápido aliado ao conhecimento salvam tanto sua própria pele quanto das que a cercam.

A família Kemi é bem interessante, o avô tem um forte ranço do passado com os criadores das poções sintéticas, fato este que depois Sam deve explorar para conseguir vencer; a irmã é uma jovem muito doce que embora sempre protegida é capaz de coisas que nem ela sabe; já os pais apoiam tudo que a filha decide fazer, e acreditam cegamente em seu talento.

Kirsty é uma coletora, ou seja, ela coleta os ingredientes necessários para as poções. Ela é quem leva Sam para o mundo atrás dos possíveis ingredientes para o antídoto. É destemida, não tem medo do perigo ou da dor. Acredita sem dúvidas que Sam é capaz, alias que é a única capaz de fazer esta poção. Já Anita é a melhor amiga de Sam e também está na caçada, embora seja uma concorrente coloca sua amizade acima de tudo.

Existe um pequeno romance, e é ele quem vai de fato auxiliar Sam com a poção, afinal como fazer um antídoto para uma poção do amor sem nunca ter se apaixonado? É muito delicado como cada ingrediente encontrado é remetido a um item do amor.

A Poção Secreta é uma aventura por lugares mágicos e sentimentos verdadeiros, é sim uma fantasia, mas também é um leve crítica sobre a tecnologia acima das tradições e natureza. É sutil, delicado e envolvente, como uma poção do amor, a leitura vai nos envolvendo, e quando terminamos estamos nada mais do que apaixonados por esta estória neste mundo que porque não poderia ser o nosso?!

Esta série ainda conta com mais dois livros, A Poção Perdida e A Poção Mortal, todos publicados aqui no Brasil.

Avaliação











As Sombras de Longbourn - Jo Baker


Quando li a sinopse de As Sombras de Longbourn, da autora Jo Baker, publicado pela editora Companhia das Letras eu não hesitei em querer lê-lo, afinal a Inglaterra no século XIX tem grande fascinação em quem vos escreve!

No condado Hertfordshire, em Longbourn, Sarah é uma empregada da família Bennet desde que seus pais faleceram, embora seja dedicada ao seu trabalho que a toma o dia inteiro não deixa de sonhar em conhecer o mundo, especialmente Londres. Após a chegada de um novo empregado em uma casa vizinha, ela passa a nutrir mais do que sonhos, assim desejos e atitudes sobre o que ela deve fazer para ir além dos muros da casa começam a nascer dentro de sua alma.

Inspirado diretamente na obra Orgulho e Preconceito ocorre ao mesmo tempo que a mesma, entretanto acompanhamos os acontecimentos sob a perspectiva dos empregados da família Bennet. Este dado porém não chegou ao meu conhecimento antes que eu começasse o livro, logo eu acredito que não ter lido Orgulho e Preconceito faz com que eu perca uma parte da beleza da estória. Sim eu assisti ao filme, mas honestamente fazem muitos anos e me lembro pouco. Acredito que quem tenha lido o livro deva aproveitar o livro muito mais.

Sarah é uma jovem muito inocente que sonha com lugares melhores porque sofre na casa em que está, não por maus tratos como era comum na época, porque tanto a família Bennet como os demais empregados a tratam bem, mas pela dureza de seu trabalho que maltrata o corpo e cansa seu espírito. Logo ela sempre sonha em conhecer outras cidades, entretanto com o passar do tempo ela começa a questionar se seu sonho é algo belo apenas em sua mente.

O casal Hill são os empregados mais velhos, a Sra. Hill é a governanta, e tenta ter controle completo de tudo que acontece na casa, junto a Sarah e Polly. Ela as tem como filhas, e tenta sempre transmitir o melhor para ambas. O Sr. Hill já está velho e doente, por conta disto acaba sendo substituído em algumas funções por um novo funcionário, James, um jovem misterioso que se mostra muito prestativo, mas que desperta sentimentos estranhos em Sarah.

James têm segredos em seu passado, mas os guarda fundo, tentando ser o mais discreto e calado possível. Este comportamento desperta em Sarah desconfiança e ao mesmo tempo mais atenção do que o normal dela por ele. Este casal até desperta alguma torcida, mas em geral é um pouco passivo demais.


Anjo Mecânico – As Peças Infernais #01 – Cassandra Clare


Londres Vitoriana...século 19...1878...somos levados para o mundo dos caçadores da sombras, Nephilins cuja missão é proteger o mundo dos demônios e seres do submundo. Essa é a atmosfera de Anjo Mecânico, primeiro livro da série As Peças Infernas, da autora Cassandra Clare pela editora Galera Record.

Tessa Gray tem dezesseis anos e depois da morte da tia em New York e a convite do irmão Nathaniel segue para Londres, onde é recebida por duas mulheres estranhas, as irmãs Black e Dark que a levam para uma casa onde a mantém como prisioneira. O que Tessa não sabia era que elas tinham um interesse específico sobre ela, no poder que até então ela não sabia possuir. Quando o jovem Will a resgata ela passa a buscar por seu irmão e tentar entender o que é, a jovem se vê diante de um mundo que nunca mais será igual.

Cassandra Clare despensa apresentações, é uma autora excelente que escreve de forma viciante e apaixonante, sua outra série Instrumentos Mortais, que sou fã é assim, e com Peças Infernais não é diferente. O modo como ela cria a trama que vai aos poucos se ligando é incrível, assim como as pontas que ela deixa para o próximo volume.

Tessa Gray é uma personagem teimosa, depois de ser enganada ao chegar em Londres não acredita em nada que lhe dito pelos caçadores das sombras, isso chega a ser irritante na personagem que passa mais tempo desconfiando do que descobrindo os fatos. Mas no geral é uma menina normal que se vê diante de uma nova vida que terá que se acostumar, além da descoberta do amor cujo qual nunca dispensou atenção antes. Diante de um problema ela age, não é mocinha, mas protagonista de sua vida mesmo diante do desconhecido.

Will Herondale é um personagem misterioso, tem um passado misterioso que esconde. Lembra muito o jeito do Jace da série instrumentos mortais, talvez porque ambos não gostam de falar sobre seu passado e sobre suas famílias, mas Will é mais rude e irônico. É um personagem com personalidade forte, que não se dobra diante de ninguém. Seus sentimentos só vem a tona quando lida com seu melhor amigo: Jem.

Jem Carstairs é frágil no que diz o seu corpo físico, e a explicação para isso é ótima! Mas sua mente é afiada e não se faz de coitado pelo sua condição. Dono de uma personalidade gentil e empática transmite segurança para Tessa em muitos momentos. É a pessoa que traz paz e as palavras certas em qualquer momento.

Os personagens secundários são ótimos, a diretora do Instituto de Londres, Charlotte me despertou curiosidade acerca de sua história, e seu companheiro Henry é um personagem doidinho que trás humor e leveza quando surge.  Jessamine é amarga, e só pensa em arrumar um modo de viver uma vida normal, nem que para isso faça coisas não muito legais, acaba por ser a menina mimada que esperamos que quebre a cara. O vilão, O Magistrado, é ardiloso e move suas cordas de forma discreta para alcançar seus objetivos, entretanto o real motivo de seu interesse em Tessa ainda não foi explicado, e isso foi o único fato que me irritou um pouco na narrativa.

O foco narrativo é bem centrado nos caçadores das sombras, embora até tenha vampiros e o famoso feiticeiro Magnus Bane dê o ar de sua graça, não existem muitas cenas e explicações para os demais habitantes do submundo. Como trata-se de uma trilogia independente essa ausência de aprofundamento nas demais criaturas pode fazer falta para novos leitores deste universo.


Os Elementais - Dr. Franz Hartmann


Já disse aqui em alguma resenha (disse? rsrsrs, memória de peixe!) que sou apaixonada por elementais não? Os famosos espíritos da natureza são bastante utilizados em romances fantásticos, mas além de amá-los em romances de ficção eu estudo e leio tudo que encontro sobre eles sob o ponto de vista ocultista/espiritualista. Nessa minha busca contínua eu esbarrei com o livro Os Elementais, do autor Dr. Franz Hartmann, pela editora Ícone.

Essa obra foi traduzida pela primeira vez do original (publicado em 1894) em alemão, e é um apanhado feito pelo Dr. Hartmann sobre os elementais através de uma ampla visão em suas distintas manifestações. Mas ao contrário do que parece ele não se detêm apenas nesses seres, ele trabalha também os resíduos dos pensamentos humanos, resíduos de espíritos já desencarnados, espíritos de desencarnados e etc, fazendo uma diferenciação entre eles.

A partir de um olhar teosófico o autor evoca diversos autores como Paracelso (um médico, alquimista, físico, astrólogo e ocultista suíço-alemão do século XV) e Helena Blavatsky (prolífica escritora, filósofa e teóloga da Rússia, responsável pela sistematização da moderna Teosofia e co-fundadora da Sociedade Teosófica do século XIX) para explicar diversos conceitos do hinduísmo a respeito de todas essas diferenças de manifestações.

Entretanto não sei se por conta da tradução, ou se o autor que quis assim, eu me vi muito confusa entre todas as coisas que explorou. Na verdade compreendi o que ele quis explicar em cada uma, como por exemplo, o fato de que nem toda assombração trata de um espírito desencarnado, mas que também pode ser apenas uma energia remanescente do morto, sem inteligência.

Mas quando ele começa a usar os termos 'espíritos' e 'elementais' a coisa se confunde. Ele usou estes termos para várias manifestações diferentes, e não sei dizer se isso é  o ponto de vista teosófico a respeito destes ou  uma confusão do autor. Os termos hindus também não ajudam muito, mas possibilitam a busca posterior a respeito dos seres citados, o que já vale muito.

O livro conta com dois prefácios, um da tradutora e um do editor, fato que não compreendi visto que a tradutora praticamente repetiu o que o editor já havia dito. Quanto ao trabalho da editora a capa é bonita, a diagramação conta letras maiores do que o normal  e facilitam a leitura.

Curto e objetivo o livro tem uma narrativa bem rápida, mas não é de fácil assimilação, mesmo para os que estão acostumados a obras sobre estes pequenos grandes seres. Com frases curtas, mas com profundidade em seu conteúdo, Os Elementais é o tipo de livro que deve ser relido de tempos em tempos para retirar o conteúdo das entrelinhas. No meu caso que faço apanhado sobre o assunto só a citação de autores, pensadores e espiritualistas que comentaram o assunto já é fonte bibliográfica que vale o livro.

Não é um livro para leigos, se você nunca leu nada a respeito espere para lê-lo. Se você já leu alguma coisa a respeito, mas não tem a menor ideia do que seja o hinduísmo, busque um pouco a respeito antes da leitura. Indico o livro para os estudantes de ocultismo que busquem aprofundamento.