A leitura de hoje é histórica e sobrenatural,
um gênero que costuma me acertar em cheio quando bem explorado. Infelizmente
não foi bem o caso de Belezas Perigosas, da autora Libba Bray, da editora
Rocco, primeiro volume da trilogia Gemma Doyle. Na trama conhecemos Gemma
Doyle, um garota de dezesseis anos que após a morte da mãe na Índia em
circunstâncias estranhas é mandada para a Inglaterra para estudar na
tradicional escola para moças Spence.
Entretanto, Gemma não é como as
demais moças que sonham com um bom casamento, ela tem um dom, um dom que a fez
ver a morte da mãe, e prever outros acontecimentos ao seu redor, assim como
viajar entre os reinos. Diante de sua nova condição na escola ela tem que lidar
com as novas amigas, o dom e as visitas de um estranho, Kartik, que parece saber
mais sobre ela do que ela mesma.
Gemma não é o tipo de garota que
esperamos encontrar no século XIX, embora ela conheça as regras da sociedade
não busca pelas mesmas coisas que as demais garotas. Talvez sua criação na
Índia tenha feito a diferença, mas o fato é que ela é vanguardista, não teme
ficar mal falada ou fazer feio na frente de ninguém. E melhor do que fazer o
que quer, ela sabe colocar as máscaras necessárias e fingir dançar conforme a
música.
A culpa que carrega pela morte da
mãe não a abandona, e marca seus atos. A sombra da mãe é parte de si, até o
momento que começa conhecer sua história. Gemma nunca teve amigas, então suas
primeiras amigas em Spence demoram a entrar nos eixos. O que as une é a vontade
de viver além da cerca, de não fazer o que é esperado delas.
Felicity é uma garota mimada que
finge ter a vida perfeita, mas que na verdade tem uma história de abandono como
marca em sua vida. Faz de tudo para conseguir fama e status, mas no fundo tem
um bom coração, mas bem no fundo! Até o momento ainda não cheguei a conclusão
se ela é ou não amiga de Gemma, é uma relação que se deu em circunstâncias de
segredo e depois de interesse.
Pippa é a menina mais bonita de
Spence, desperta atenção de todos, mas seus pais parecem já ter escolhido seu
caminho. Isso a mata aos poucos, e quando conhece os poderes de Gemma se vê
diante da possibilidade de uma liberdade que jamais conheceu.
Ann é a bolsista de Spence, é
ignorada por todos e sente-se a última bolacha do pacote. Quando Gemma a traz
para o grupinho das populares ela demora a encontrar seus valores, mas uma vez
que autoestima surge uma força interior brota. Não gostei muito da personagem,
ela é muito sonsa, e não boazinha como esperado.
Kartik é um enigma, até agora não
sei dizer qual a dele. E isso é um ponto que me incomodou no livro, faltam
informações a cerca do que afinal ele faz parte, e porque o grupo que ele faz
parte acredita que os poderes de Gemma não podem ser usados. As falas do
personagens são breves e vagas, ou seja, fica por conta da imaginação o que ele
é, e o que ele afinal sente por Gemma.
A narrativa é feita em primeira
pessoa, sob o ponto de vista de Gemma. O livro conta com uma diagramação
simples e um capa muito charmosa. Bray escreve bem quanto a descrição de
lugares e criação de personagens, mas como citei senti falta de maiores dados
sobre o poder de Gemma e toda a 'mitologia' que a acompanha. Este fato fez com
que as páginas se arrastassem um pouco para mim. O livro simplesmente não
funcionou porque não fornecia pistas suficientes.
Mesmo diante deste defeito, o
desfecho foi interessante porque trouxe maiores detalhes e uma reviravolta que
muda a visão de Gemma da mãe e dos poderes que possui. O finalzinho do livro
trás uma reflexão interessante acerca da
sombra (um conceito junguiano, o que seria como um lugar sombrio de nossa mente
onde reprimimos tudo que não queremos ter contato, claro tudo isso de maneira
inconsciente), sobre sermos capazes de fazer qualquer coisa.
Afinal somos capazes de criar e
destruir, de amar e odiar, e o fato de reconhecermos isso em nós que faz com
que possamos controlar nossos impulsos mais sombrios, ou primitivos. E não
fingir a bondade sem reconhecer a maldade inerente a raça humana. Ser bom, ou
fazer escolhas corretas é vencer uma guerra dentro de si, é escolher fazer do
mundo um lugar melhor, e não necessariamente o que é melhor para você.
Belezas Perigosas é um livro bom,
mas que faltou liga para mim. Vale para todas as pessoas que gostam de romances
de época com pitadas de magia. Sua continuação Anjos Rebeldes já foi publicado
pela Rocco, e já está aqui na minha prateleira me esperando, mas confesso que
pela grossura dele, e pela experiência lenta de Belezas Perigosas deve demorar
a ser lido. O terceiro livro Doce e Distante também já publicado fecha a
trilogia.

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