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O livro da loucura e das curas - Regina O'Melveny

Vários dias depois de ter terminado "O livro da loucura e das curas", de autoria de Regina O'Melveny, ainda me encontro anestesiada. Não há outra palavra para definir este título que não "arte". Regina, em seu romance de estreia, consegue centralizar inúmeros sentimentos em uma única obra. Apesar de este ser o primeiro romance da norte-americana, ela tem experiência com a escrita de poesias, o que talvez tenha colaborado para a criação dessa prosa tão delicada.
A história contada é a de Gabriella Mondini, uma médica impedida de exercer sua profissão simplesmente por ser mulher - a trama se passa na Itália do século XVI, época na qual o gênero era fator limitante para que uma pessoa fosse ou não considerada cidadã. O pai de Gabriella foi quem a ensinou o ofício, mas agora a protagonista se encontra sem seu maior guia: seu pai embarcou em uma viagem com o objetivo de conhecer e catalogar as mais diversas doenças conhecidas e desconhecidas, e, por meio de uma carta, anuncia que não pretende retornar para a família. Sem esse amparo masculino, porém, Gabriella não pode ser considerada médica. E ela, decidida a não permitir que isso ocorra, parte em busca de seu pai com o objetivo de fazê-lo voltar.
Gabriella é singular. Confesso que não esperava toda essa rebeldia e determinação por parte de uma personagem feminina em um contexto tão patriarcal. Ela ilustra o espírito guerreiro compartilhado por inúmeras mulheres que sobrevivem aos mais devastadores meios. Ela é forte o suficiente para demonstrar que cultura alguma domina, efetivamente, as mulheres. Além de Gabriella, outros dois personagens conquistam a atenção do leitor: Olmina e Lorenzo, criados de sua residência e, posteriormente, seus companheiros de viagem.
Procurando por seu pai, Gabriella passa por muitas cidades. Um recurso sensacional oferecido pelo livro é um mapa que ocupa duas páginas, auxílio que se mostra como em excelente diferencial. Ao acompanhar seu trajeto, o leitor conhece várias doenças que hoje são consideradas sentimentos, tais como angústia e inveja. Esses trechos convidam a uma interessante reflexão sobre sensações ruins e suas implicações não somente físicas, mas também psicológicas.
O viés histórico também é impactante: "O livro da loucura e das curas" permite que tenhamos contato com uma realidade pouquíssimo habitual, na qual mulheres cheias de importantes e úteis conhecimentos são condenadas e taxadas de bruxas. É muito interessante ter contato com esta época através da perspectiva de Gabriella, tão visionária, tão a frente de seu tempo.
A Novo Conceito mais uma vez não decepciona com a diagramação deste volume. Não tenho receio de dizer que a capa desse livro tem a melhor textura que já conheci, dotada de uma sensação fantástica e muito atrativa. O papel utilizado na impressão também é de excelente qualidade, as páginas amareladas facilitam a leitura e deixa o aspecto ainda mais bonito.
"O livro da loucura e das curas", apesar de voltado para um público mais maduro, é recomendado para todos que querem se envolver em uma trama muitíssimo bem construída, repleta de elementos históricos. Recomendo especialmente para o público feminino, para que as mulheres aprendam a cada vez mais que esse conceito de sexo frágil é absurdamente ultrapassado - mulheres, sem importar a cultura na qual estão inseridas, podem ser absolutamente o que elas quiserem ser.
Quotes:
"Tornei-me tão transparente quanto o vidro através do qual espiava, perigosamente invisível até para mim mesma. Foi então que percebi que deveria colocar minha vida em movimento, caso contrário, eu desapareceria." (Página 17)
"Não mandarei ninguém atrás de você, meu pai, decidi naquela noite. Eu mesma irei." (Página 28)
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Um gato de rua chamado Bob - James Bowen

"Um gato de rua chamado Bob" é um livro publicado originalmente em 2012 pelo inglês James Bowen. Baseado em fatos reais, o título fez enorme sucesso ao redor do mundo, figurou várias listas de mais vendidos e alcançou o topo dos rankings britânicos por surpreendentes 52 semanas, fato no mínimo incomum para escritores estreantes. No livro, James conta uma linda e real história de superação proporcionada pelo sensível relacionamento com seu animal de estimação.
James e Bob se conheceram frente à porta de um dos apartamentos do prédio no qual o protagonista morava. Ao encontrar o gato estirado em um tapete, doente e fraco, James sentiu imediatamente que deveria cuidar do bichano, apesar de mal ter condições de cuidar de si próprio: ele tinha poucas perspectivas de futuro, morava em um edifício cedido pelo governo, e tentava se recuperar de um longo histórico de vício em cocaína. Além dessa questão, o homem ainda tinha de lidar com diversos transtornos psicológicos diagnosticados durante sua adolescência, entre os quais esquizofrenia e bipolaridade. Nesse contexto de tantos problemas, Bob se torna o porto-seguro de Bowen, uma razão para continuar lutando pela vida apesar de toda a crueldade dela.
Ao ler "Um gato de rua chamado Bob" é possível se lembrar de "Marley & Eu", publicado em 2005. Apesar das narrativas se darem de modo completamente diferente, foi a partir do best-seller de John Grogan que se destacou no mercado editorial essa tendência de incluir animais de estimação praticamente como personagens protagonistas de diversos volumes. Entre tantas possibilidades, Bowen se diferencia ao tratar de limiares que vão além da relação homem-bicho: seu livro é também uma importante denúncia acerca de camadas cada vez mais marginalizadas em nossa sociedade, tais como moradores de rua e dependentes químicos. De certo modo, o próprio gato alude a uma aura de fragilidade característica de pessoas negligenciadas.
A escrita combina perfeitamente com os temas que são abordados: é delicada e otimista, mas sem tender para um aspecto de autoajuda.  A Nova Conceito fez um trabalho magnífico para a adaptação, recheando as páginas de patinhas animais. O próprio ícone da editora recebeu um tratamento especial, contando com a representação de um gatinho ao lado do logo, conferindo individualidade à capa da publicação. As páginas são amareladas e possuem uma ótima textura.
O autor dedica seu texto àqueles que já perderam um amigo. Acredito também que "Um gato de rua chamado Bob" pode ser interessante para aqueles que pretendem manter uma amizade. Recomendo para todos que desejam renovar suas esperanças na recuperação do mundo como o conhecemos.
Quote:

 "Sabia que aquela era minha última chance de mudar a situação. E eu sabia que tinha que a agarrar dessa vez. Se fosse um gato, estaria com minha sétima vida." (Página 39)
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Após a Tempestade – Karen White

"Após a tempestade" é um livro repleto de suspense. Publicado no início desse ano pela escritora Karen White, o romance conta a história de Julie Holt, uma mulher muito afetada pela falta que sua irmã, desaparecida há 17 anos, faz. Julie conhece Monica Guidry e uma amizade muito bonita é estabelecida entre as duas, sendo Monica responsável por reacostumar Julie a criar laços afetivos, capacidade corrompida depois do traumático desaparecimento de sua irmã. Tão forte união é fatidicamente rompida pelo falecimento de Monica, que previamente manifestou sua intenção de ter Julie como tutora de seu filho, Beau. Além da nova responsabilidade, Julie também recebe como herança uma casa em Nova Orleans, local aonde Monica nascera e que, por motivos desconhecidos, ao qual nunca mais quis retornar.
Decidida a apresentar Beau a suas origens, Julie parte com o menino em busca da família de sua amiga e da casa deixada em testamento. Ao encontrar a localidade, porém, tudo que é encontrado é uma grande atmosfera de destruição: a residência não existe mais. Ao se deparar com um quadro, um novo presente deixado por Monica, Julie se vê envolta por diversos mistérios que parecem unir sua família à de sua falecida amiga. Conhecendo mais e mais parentes de Monica, Julie encontra respostas para perguntas que ela sequer se imaginaria capaz de fazer.
A principal característica de "Após a tempestade" é a obscura relação entre as famílias Holt e Guidry. A autora dialoga entre os dois contextos com espantosa maestria, sabendo dosar perfeitamente a participação dos personagens e equilibrando os vários elementos da história para criar uma trama envolvente. É impossível conter a curiosidade quanto ao que irá acontecer a seguir e de que modo os fatos irão se desenrolar, e Karen consegue prender a atenção do leitor da primeira a última página. Os personagens também são apaixonantes, bem construídos e maduros.
Confesso que o livro foi uma ótima surpresa. Não conhecia a autora, e a capa em um primeiro momento me pareceu pouco adequada à sinopse. Depois da leitura, porém, percebi que essa era somente uma falsa primeira impressão, e que apesar de a fotografia remeter a certo romance, também se encaixa na melancolia e suspense que o texto transparece. A diagramação é simples e funcional, em nada deixando a desejar mesmo aos mais exigentes leitores.
Recomendo "Após a tempestade" para os leitores interessados em se surpreender com um enredo inteligente e muito bem tecido, composto de elementos dramáticos aplicados em doses adequadas. Espero que mais pessoas conheçam mais do trabalho de Karen White e tenham a mesma satisfação ao ler outros de seus livros, carregando sempre consigo a principal lição que a história de Julie nos passa: um recomeço é sempre possível e plausível, por mais destruídos que um local ou situação aparentem estar.
Quote:

 “Porque algumas coisas nunca devem ser esquecidas. Não importa se é uma lembrança que nos ensine alguma coisa ou uma lembrança de algo precioso, como um botão para rebobinar a vida. Às vezes, é só o que temos.” (Página 302)
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O apanhador no campo de centeio - J. D. Salinger

      "O apanhador no campo de centeio" é a mais famosa obra do escritor estadunidense J. D. Salinger. Publicado entre 1945 e 1946 sob a forma de revista e somente adaptado para o mercado editorial cinco anos mais tarde, o livro versa sobre um fim de semana da vida de Holden Caulfield, adolescente que foi expulso do colégio por conta de seu mau desempenho. No caminho de volta para a casa dos pais, Holden entra em um período de intensa reflexão acerca de sua personalidade, suas atitudes e o modo que deseja organizar seu futuro. O leitor é convidado a entrar nesse universo particular e a fazer ele próprio suas observações acerca de inúmeros temas frequentemente discutidos durante a adolescência.

    Está não é, de modo algum, uma obra fácil de digerir. A abordagem de Salinger é muito direta, e é complicado formar uma opinião sobre o protagonista, típico anti-heroi. A linguagem é muito distinta da utilizada em outras obras voltadas para o público jovem. Apesar de Holden ter apenas 17 anos e de o romance ter se tornado um símbolo cultuado por massas e massas de adolescentes, a temática não é suave: são levantadas questões sobre comportamentos, alienação e, principalmente, pertencimento.
     Holden tem dificuldade de se integrar dentro de um grupo, de se comunicar. Tal tendência só se oprime diante da figura de sua irmãzinha, Phoebe, única pessoa com quem ele consegue expressar seus verdadeiros sentimentos e valores. É nela que ele encontra certo apoio, mesmo que de maneira um tanto incerta.
     A medida que o texto se desenvolve, outros importantes personagens surgem e invadem as páginas com suas histórias, suas falas, seus modos de pensar. Professores, colegas de colégio, prostitutas e ex-namoradas desdobram-se sobre Holden, exigem dele posicionamentos, chateiam o leitor com suas futilidades tão desmedidas. Mesmo com tantas tentativas de distração, o questionamento permanece: é necessário entender quem é esse jovem. É preciso pensar sobre os motivos que não permitem que ele se encaixe em lugar algum, dissecar o cansaço e a depressão que ele abriga e transmite a quem o lê. É primordial decidir se ele agiu de modo errado com a vida ou se a vida agiu de modo errado com ele. E é inevitável comparar a tortuosa jornada de Holden com a traçada por todos nós.
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A vida secreta das abelhas - Sue Monk Kidd

   “A vida secreta das abelhas” é a mais famosa obra da escritora americana Sue Monk Kidd. Publicado em 2004 e posteriormente adaptado para o cinema numa interpretação brilhante da ainda criança Dakota Fanning, o livro é repleto de carga emocional e de ensinamentos que perduram mesmo após muito tempo decorrido desde sua leitura.

   A trama se passa na Carolina do Sul de 1964. O contexto é de violência e ódio racial, e a luta pelos direitos civis dos negros está no seu auge. Lily Owens é uma jovem de 14 anos que, apesar da pouca idade, já conviveu com a dor em suas diversas formas. Maltratada e negligenciada por seu pai, a menina também carrega a culpa de causar a morte da própria mãe. A única pessoa na qual Lily encontra afeto é Rosaleen, babá e empregada doméstica de sua pequena família. Quando Rosaleen é agredida por homens brancos ao lutar por seus direitos, Lily percebe que é chegada a hora de partir em busca de alguma esperança que torne sua existência mais recompensadora. É na imagem de uma santa, um dos poucos pertences deixados por sua mãe, que a garota encontra essa esperança: a inscrição da cidade de Tiburon, localizada no mesmo estado. Buscando encontrar alguma referência sobre a juventude de sua mãe, Lily decide partir rumo ao desconhecido, levando Rosaleen com ela. Em Tiburon, as duas conhecem May, June e August, as três irmãs apicultoras que as mostrarão o verdadeiro significado de amizade e perdão.

   Embora seja protagonizado por mulheres e conte a história de um grupo muito especial delas, “A vida secreta das abelhas” é capaz de emocionar todos os tipos de públicos. Presenciar o modo como T. Ray é sádico com Lily e a desmoraliza constantemente é um tanto desconfortável e faz o leitor refletir sobre a maldade contida no homem: enquanto alguns exploram a inata violência focando-a no âmbito racial, outros, não satisfeitos, espalham a raiva também dentro de sua família.

   Comovente, o livro carrega em 301 páginas a pureza tão necessária naquele tempo e também nos atuais. A história é de superação e amadurecimento, e, ainda que seja um processo incisivo, é incrível ter a oportunidade de acompanhar Lily em sua jornada pelo crescimento pessoal. Os outros personagens também merecem destaque, como August, a irmã mais velha que se comporta como mãe; e May, a caçula dona de uma sensibilidade poucas vezes encontrada. June, apesar de sua inicial resistência e inflexibilidade, também se revela como portadora de uma personalidade surpreendente.

   Afora as características da história, o trabalho gráfico também é interessante. No início de cada capítulo há uma citação relacionada às abelhas e ao conteúdo que será abordado naquela parte. Narrado em primeira pessoa, de modo algum o livro se torna menos pessoal: cada página é uma descoberta do leitor sobre a importância de sentimentos que muitos de nós acreditam estar perdidos.


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A culpa é das estrelas - John Green

   “A culpa é das estrelas” é o mais recente sucesso do escritor estadunidense John Green. O livro conta a história de Hazel, uma garota que sofre de um câncer na tireoide que se manifestou em outras partes de seu corpo. Ao frequentar uma sessão de terapia em grupo, a adolescente conhece August, sobrevivente de um câncer nos ossos que o obrigou a amputar uma das pernas. Desse encontro nasce uma comovente história de amor capaz de emocionar todos os tipos de leitores.
   A sinopse pode parecer um clichê comum em adaptações hollywoodianas, tipicamente compostas por diálogos cansativos e repletos de um romantismo exagerado e inverossímil. A narrativa, porém, mostra competência para ultrapassar esses conceitos: ainda que o amor seja um importante tópico abordado, a história vai muito além. Gus e Hazel não são caricatos, não representam o clássico perfil do jovem doente que muitas vezes é transformado em mártir. John constrói os personagens com uma maestria invejável, e se recusa a torná-los amargurados, apesar da triste realidade na qual estão inseridos.
   A linguagem usada pelo autor é muito pertinente. Ao inserir gírias em alguns pontos, John nos lembra de que a narradora poderia ser qualquer adolescente, mas não uma adolescente qualquer. A  personalidade marcante de Hazel é mais um aspecto muito positivo para o livro. Mesmo os acontecimentos paralelos, como a relação de Monica e Isaac – amigo de August –, são observados por ela com sagacidade.
   O cotidiano assume uma importância impensável. O livro se desenrola de maneira tocante, e não apresenta o estereótipo de “final feliz”. A intenção de Green parece ter sido exatamente esta: demonstrar que um final feliz muitas vezes não é possível, mas essa inexistência é superada por “inícios e meios” felizes. E, definitivamente, o início e o meio do casal são suficientemente felizes.
   Depois dessa resenha nada imparcial, não preciso dizer que “A culpa é das estrelas” entrou rapidamente para as primeiras posições no meu ranking de favoritos. Creio que a história é uma daquelas que deveriam ser lidas por todas as pessoas que desejam se sentir inspiradas e vivas. O livro comove e surpreende, e, ainda que explore assuntos nada fáceis de lidar, mostra-se como um fantástico exemplo da infinita capacidade humana de superação.

Quote

“Não sou formada em matemática, mas sei de uma coisa: existe uma quantidade infinita de números entre o 0 e o 1. Tem o 0,1 e o 0,12 e o 0,112 e uma infinidade de outros. Obviamente, existe um conjunto ainda maior entre o 0 e 2, ou entre o 0 e o 1 milhão. Alguns infinitos são maiores que outros... Há dias, muitos deles, em que fico zangada com o tamanho do meu conjunto ilimitado. Eu queria mais números do que provavelmente vou ter.” 

(Contra-capa)


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Especial séries: House MD

   Julho, para muitas pessoas, significa mais tempo livre e busca por diversão. Além dos queridos livros, outra opção de entretenimento são as séries de TV. Nesse meio, que se caracteriza por ser muito competitivo, algumas produções costumam se destacar, seja pela qualidade do roteiro ou pela competência do elenco. Por esses e tantos outros motivos, o seriado estadunidense House MD alcançou fama mundial e admiração do grande público ao narrar a rotina de uma equipe médica liderada pelo personagem homônimo.
   O principal cenário da série é o Hospital Princeton-Plainsboro. Entre a brilhante equipe, destaca-se o Dr. Gregory House, chefe do departamento de Medicina Diagnóstica e o melhor médico da instituição. Não apenas de méritos, porém, é formada a reputação de House: ele é também conhecido por seus excêntricos métodos, que incluem o uso de tratamentos experimentais e a manutenção do mínimo possível de contato com seus pacientes. Sua arrogância irrita todos e o tornam o típico anti-heroi - embora detestado pelo jeito inflexível que apresenta, sua genialidade é fascinante.
   O Dr. James Wilson é o único e grande amigo de House, mas tem uma personalidade muito mais maleável que a dele. Seus sucessivos divórcios sempre são citados em longas discussões que, inevitavelmente, culminam em análises sinceras de seus traços psicológicos. A Dra. Lisa Cuddy, diretora do hospital, também é próxima do protagonista, porém menos disposta a aturar as ideias de House. Mais alguns competentes médicos fazem parte do cotidiano de House MD - Robert Chase, Eric Foreman e Allison Cameron compõem  a primeira equipe, e outros são contratados durante as oito temporadas. 
   A série venceu inúmeros prêmios, incluindo dois Globos de Ouro, e foi a mais assistida em 2008. Hugh Laurie, o inglês que interpreta o personagem principal, é dono de uma atuação incrível, que recebe constantes elogios. O texto também é espetacular, gerando diálogos repletos de ironias. Os personagens são inteligentes e complexos, fugindo do estereótipo muitas vezes sentimentalista que esse tipo de roteiro pode agregar. Gregory House, claramente inspirado em Sherlock Holmes, relaciona-se com suas mais profundas dores e dilemas  para combater as verdadeiras vilãs desse e de qualquer outro hospital: doenças misteriosas que, muitas vezes, parecem surreais.                                    
   Caso deseje se aprofundar no universo criado por David Shore sem abandonar a literatura, é interessante a leitura de "A ciência médica de House", escrito pelo jornalista especializado em medicina Andrew Holtz. O livro compara o seriado com a realidade, definindo a tênue fronteira entre o que ou não verossímil e justificando os possíveis exageros cometidos para potencializar o efeito dramático dos enigmas médicos. Holtz analisa diagnósticos, exames e o comportamento dos profissionais com muita perspicácia, fornecendo à leitura a fluência necessária para torná-la, ao mesmo tempo, prazerosa e informativa.
   Recomendo a série para todos que querem assistir um envolvente drama médico. Os interessados pelas mais excêntricas enfermidades e sintomas certamente não vão se decepcionar.


Para assistir: A oitava temporada está sendo reexibida no Universal Channel, nas quintas-feiras, às 20h. No mesmo dia, às 23h55m, a Rede Record também transmite a série. 

Para saber mais: Acesse o espaço da série no portal da Universal. Na página, são frequentemente postados vídeos, fotos, informações e entrevistas do elenco. O site é http://uc.globo.com/programas/house/. 

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Doidas e santas - Martha Medeiros

   “Doidas e Santas” é um livro que reúne algumas das melhores crônicas da escritora brasileira Martha Medeiros. Famosa por suas colunas publicadas em jornais, essa gaúcha já publicou também livros de poesia. Um de seus maiores sucessos é o romance "Divã", que foi brilhantemente adaptado para o cinema e alcançou grande bilheteria.
   As crônicas selecionadas para compor “Doidas e Santas” possuem temas bastante atuais. Aos poucos, parte da rotina de Martha – e, de certo modo, o de toda mulher moderna – toma todas as páginas. Ela comenta livros, filmes, notícias e pequenos episódios cotidianos, com um senso de humor inabalável e muita sensibilidade.
   Uma característica de Martha é a metalinguagem, ou seja, muitas vezes ela escreve sobre o próprio processo de escrever, aproximando o leitor dos assuntos explorados. Ela também faz referência a inúmeros personagens, recomendando e instruindo o acesso a cultura de primeiríssima qualidade.
   Além da qualidade do livro, o trabalho feito pela equipe de diagramação é igualmente fantástico. A capa é muito pertinente, capaz de sintetizar de forma muito eficiente o conteúdo das crônicas. O papel tem textura agradável e é muito bonito, mantendo por longo período aquele aspecto de recém-comprado.
   A leitura de “Doidas e Santas” é muito divertida e interessante, recomendada para um tipo de público exigente e interessado em conhecer a crônica interpretada como um diferente e dinâmico gênero textual. Simples textos certamente poderiam preencher as 230 páginas do livro, mas Martha não se contenta e nos concede algumas lições sobre as maravilhas e problemas incluídos no singelo ato de viver.
Quote
"A população do planeta está em plena atividade, todos trabalhando, planejando, comemorando, matando, sobrevivendo, um mundo no gerúndio, sem interrupções, e a gente consumindo tudo isso, soterrados por tanta notícia, por tanto apelo, por tanta exigência de opinar, concordar, discordar. Você poderia estar ouvindo uma música agora, olhando pro céu. Você poderia estar regando suas plantas, poderia estar observando o barulho da chuva, poderia estar preparando um chá ou lendo um belo poema em vez desses meus lamentos. Não, não me abandone, mas deixo aqui uma perguntinha: você tem recebido notícias de si mesmo?"
(Trecho de “Notícias de tudo”, P. 144.)

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A Menina Que Roubava Livros - Markus Zusak

                                                 
   “A menina que roubava livros”, best-seller escrito pelo australiano Markus Zusak, rapidamente alcançou sucesso em todo o mundo. Ambientado na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, a narrativa é contada por uma personagem surpreendente: a Morte. Essa improvável narradora mostra-se surpreendentemente afável ao narrar a vida de Liesel Meminger, uma garota de 9 anos que mora com os pais adotivos após ser obrigada a se separar de sua mãe, que era comunista. Além disso, seu irmão, Werner, que seria recebido pela mesma família, morre durante o trajeto, e ela nunca teve contato com o pai. Cercada pela hostil atmosfera desse momento histórico, Liesel encontra refúgio nos livros que, depois de muita persistência dela e de Hans Hubermann, seu carinhoso pai adotivo, finalmente aprende a ler. Cada vez mais fascinada pela literatura, a menina passa a roubar livros dos mais diversos temas – o primeiro deles pertencia ao coveiro que enterrou Werner, e representa o último vínculo com sua realidade anterior. Assim, a partir das relações que Liesel estabelece com os moradores da Rua Himmel, é escrita uma história que emociona grande parte do público leitor.
   Desde que o li, esse livro permanece como um dos que eu considero mais tocantes. A temática, que é bastante delicada, é transmitida de modo muito suave, o que não o torna menos comovente. Seu sucesso absoluto é reflexo da qualidade da escrita: por mais de 200 semanas, "A menina que roubava livros" esteve na lista dos mais vendidos do The New York Times.
   Durante a narrativa, a Morte se apresenta como mais uma vítima da violência humana: embora sua imagem seja sempre associada à dor e tristeza, o trabalho de recolher almas não é pouco doloroso. Outros personagens também são muito bem construídos, como Rudy Steiner, que se torna um grande amigo de Liesel, e Rosa Hubermann, a rígida mulher que assume o lugar de sua mãe. Hans, marido de Rosa, conquista os leitores com sua imensa doçura.
   O trabalho gráfico também é fantástico.  A capa é lindíssima, e os livretos e ilustrações que Max, o judeu que é abrigado na casa de Liesel, faz são brilhantemente colocados no livro, dando uma impressão ainda maior de proximidade com o contexto.
   Em certos momentos da história, os comentários e reflexões da Morte sobre a Guerra são capazes de transbordar os olhos de lágrimas. No fim da leitura, é impossível não se sentir envolvido com a dura realidade vivida pela população da época. De modo muito intenso, é natural desejar que outras meninas que ainda hoje compartilham vidas tão difíceis possam encontrar salvação no poder transformador das palavras.

Quote
"Na última vez que a vi, estava vermelho. O céu precia uma sopa, borbulhando e se mexendo. Queimando em alguns lugares. Havia migalhas pretas e pimenta riscando a vermelhidão. 
Antes, houvera crianças pulando amarelinha ali, na rua que lembrava páginas manchadas de gordura. Quando cheguei, ainda era possível ouvir seu eco. Os pés batendo no chão. As vozes infantis rindo, e os sorrisos feito sal, mas se estragando depressa.
Depois, bombas.”
(P. 17)


UPDATE: Para ler a resenha de outro excelente trabalho de Zusak, "Eu sou o mensageiro", que recentemente foi postada aqui no House of Chick, clique aqui.

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A Cidade do Sol - Khaled Hosseini


   “A cidade do Sol”, segundo livro do afegão Khaled Hosseini, repete o sucesso de “O caçador de pipas” usando uma fórmula bem parecida: a construção da amizade inserida em um contexto repleto de tensões. Dessa vez, porém, o sucesso de público e crítica tem raízes muito mais centradas em uma perspectiva feminina.
   A primeira parte do livro apresenta-nos Mariam, uma menina de quinze anos que é resultado do relacionamento entre Jalil, um homem rico da região de Herat, e Nani, a ex-empregada dele. Sua mãe insiste em dizer que ela é uma “harami” (“bastarda”), e a ligação da garota com o pai é resumida em algumas visitas. A vida de Mariam segue sem maiores perturbações até que Nani morre e ela, forçada pelas circunstâncias, decide procurar por auxílio indo até seu pai. Ao chegar lá e entender que Jalil tem uma família consolidada e não pretende incluir em seus planos uma filha nascida em um caso extraconjugal, ela é obrigada a se casar com Rashid, um sapateiro trinta anos mais velho e que representa a parcela mais autoritária dos homens do Afeganistão.
   Na segunda parte, a narrativa salta alguns anos e é focada na vida de Laila, uma menina que mora na mesma rua de Mariam e Rashid. Ela, porém, tem muito mais expectativas: é estudiosa, tem um pai amoroso e que a apoia, e tem um amigo que compensa qualquer sofrimento que a guerra possa causar - Tariq. Pouco tempo depois, ela engravida de Tariq e, como se não bastasse esse impacto emocional, perde os pais na ocasião da queda de um míssil. Sem enxergar outra possibilidade, acaba abrigada por Rashid e sendo sua segunda esposa, atribuindo a paternidade de seu filho a ele.
   A terceira parte é dedicada a explorar a ligação que nasce, aos poucos, entre as duas protagonistas. Mariam e Laila, depois de um breve momento de rejeição mútua, passam a se ajudar na busca por um objetivo maior: alcançar a felicidade, mesmo em uma realidade que se mostra tão dura.
   Em todas as 364 páginas, Khaled desempenha com excelência o trabalho de emocionar o leitor. Muitas questões que não são comuns no estilo de vida ocidental são exploradas com perspicácia, como a morte por apedrejamento – este é, sem dúvida, um dos trechos que pode deixar os mais sensíveis com lágrimas nos olhos. O livro é importante por desmitificar alguns aspectos facilmente associados ao Afeganistão e por introduzir novos conceitos quando o assunto é o Oriente Médio.
    “A cidade do Sol” é um retrato do cotidiano de um país em meio a tantos conflitos e que tenta, desesperadamente, encontrar uma ponta de reconstrução e esperança onde quer que ela possa estar. Assim como Hosseini, que dedicou seu sucesso “às mulheres do Afeganistão”, indico a leitura para mulheres – e homens – que queiram se deparar com exemplos magníficos de força e coragem, além de uma dose majestosa de inspiração pessoal e uma lição de que os sentimentos, quando verdadeiros, podem resistir a qualquer tipo de sofrimento e dor.

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