Vários dias
depois de ter terminado "O livro da loucura e das curas", de autoria
de Regina O'Melveny, ainda me encontro anestesiada. Não há outra palavra para
definir este título que não "arte". Regina, em seu romance de
estreia, consegue centralizar inúmeros sentimentos em uma única obra. Apesar de
este ser o primeiro romance da norte-americana, ela tem experiência com a
escrita de poesias, o que talvez tenha colaborado para a criação dessa prosa
tão delicada.
A história
contada é a de Gabriella Mondini, uma médica impedida de exercer sua profissão
simplesmente por ser mulher - a trama se passa na Itália do século XVI, época
na qual o gênero era fator limitante para que uma pessoa fosse ou não
considerada cidadã. O pai de Gabriella foi quem a ensinou o ofício, mas agora a
protagonista se encontra sem seu maior guia: seu pai embarcou em uma viagem com
o objetivo de conhecer e catalogar as mais diversas doenças conhecidas e
desconhecidas, e, por meio de uma carta, anuncia que não pretende retornar para
a família. Sem esse amparo masculino, porém, Gabriella não pode ser considerada
médica. E ela, decidida a não permitir que isso ocorra, parte em busca de seu
pai com o objetivo de fazê-lo voltar.
Gabriella é
singular. Confesso que não esperava toda essa rebeldia e determinação por parte
de uma personagem feminina em um contexto tão patriarcal. Ela ilustra o
espírito guerreiro compartilhado por inúmeras mulheres que sobrevivem aos mais
devastadores meios. Ela é forte o suficiente para demonstrar que cultura alguma
domina, efetivamente, as mulheres. Além de Gabriella, outros dois personagens
conquistam a atenção do leitor: Olmina e Lorenzo, criados de sua residência e,
posteriormente, seus companheiros de viagem.
Procurando
por seu pai, Gabriella passa por muitas cidades. Um recurso sensacional
oferecido pelo livro é um mapa que ocupa duas páginas, auxílio que se mostra
como em excelente diferencial. Ao acompanhar seu trajeto, o leitor conhece
várias doenças que hoje são consideradas sentimentos, tais como angústia e
inveja. Esses trechos convidam a uma interessante reflexão sobre sensações
ruins e suas implicações não somente físicas, mas também psicológicas.
O viés
histórico também é impactante: "O livro da loucura e das curas"
permite que tenhamos contato com uma realidade pouquíssimo habitual, na qual
mulheres cheias de importantes e úteis conhecimentos são condenadas e taxadas
de bruxas. É muito interessante ter contato com esta época através da
perspectiva de Gabriella, tão visionária, tão a frente de seu tempo.
A Novo
Conceito mais uma vez não decepciona com a diagramação deste volume. Não tenho
receio de dizer que a capa desse livro tem a melhor textura que já conheci,
dotada de uma sensação fantástica e muito atrativa. O papel utilizado na
impressão também é de excelente qualidade, as páginas amareladas facilitam a
leitura e deixa o aspecto ainda mais bonito.
"O
livro da loucura e das curas", apesar de voltado para um público mais
maduro, é recomendado para todos que querem se envolver em uma trama muitíssimo
bem construída, repleta de elementos históricos. Recomendo especialmente para o
público feminino, para que as mulheres aprendam a cada vez mais que esse
conceito de sexo frágil é absurdamente ultrapassado - mulheres, sem importar a
cultura na qual estão inseridas, podem ser absolutamente o que elas quiserem
ser.
Quotes:
"Tornei-me
tão transparente quanto o vidro através do qual espiava, perigosamente
invisível até para mim mesma. Foi então que percebi que deveria colocar minha
vida em movimento, caso contrário, eu desapareceria." (Página 17)
"Não mandarei ninguém atrás de você, meu pai, decidi naquela noite. Eu mesma irei." (Página 28)
Avaliação









































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