Mostrando postagens com marcador Júlia Calasans. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Júlia Calasans. Mostrar todas as postagens

A Arte de Correr Na Chuva - Garth Stein


Se fôssemos para classificar as histórias dos livros em categorias distintas, teríamos várias delas já definidas em nossa mente: livros de mistério, livros de aventura, livros de suspense, livros de romance. Mas há sempre um ou outro livro que não se encaixa em nenhuma dessas categorias, que é uma exceção entre as nossas frescuras típicas de leitora e que chega direto ao nosso coração.
Esse é a Arte de Correr Na Chuva.
Não foi a capa que me encantou. Nem a sinopse. Na verdade, eu não dava nada para esse livro quando o peguei para ler, e lê-lo foi uma surpresa tão agradável quanto renovadora. Admito que me excedi em todos os meus chatos padrões nesse livro, e gostei disso. É uma história simplesmente maravilhosa.
Enzo é um cachorro muito ativo e esperto, que vive com o seu dono Denny, um piloto de Fórmula 1, e aprendeu, desde pequeno, graças a convivência com o dono, a entender o comportamento dos humanos e querer ser um deles. Por causa de um documentário que viu na TV certo dia, sobre a Mongólia, onde eles acreditam que os cachorros, após morrerem, se reencarnam em humanos, Enzo vive toda a sua vida observando o comportamento deles e esperando a hora de ser um. E, logo antes a sua morte, ele faz uma retrospectiva sobre todos os fatos que viveu com Denny, sobre as dificuldades que passaram juntos e as alegrias também, concluindo se está ou não apto a ser um humano após a sua morte.
É sobre a retrospectiva de Enzo sobre a vida vivida com Denny que a história se desenvolve. Narrada pelo ponto de vista do cachorro—uma das narrativas mais originais, divertidas e maravilhosas na que tive o prazer de me aventurar—ele conta, de um modo extremamente humano, mas sem perder a personalidade que definitivamente lhe difere com um cão, todos os fatos de sua vida, pontuados por comentários que nos fazem rir e que são definitivamente adoráveis. Enzo é um cão maravilhoso, e a história seria simplesmente sem graça se não fosse narrada por ele. É o seu ponto de vista que encorpa os fatos, o seu modo humanamente canino de ver as coisas, as suas filosofias profundas.
A narrativa do autor é deliciosamente agradável de ler, e flui leve e rápido, ao mesmo tempo que nos prende. A história mantém um ritmo estável durante todo o livro; desde o começo, a narrativa nos prende, levando a um meio envolvente que deságua num final que eu só posso definir como lindo e fofo. O livro inteiro se baseia nessas palavras. A história de Enzo toda é maravilhosamente fofa, linda, uma espiral de emoções que mudam o tempo inteiro. Ao mesmo tempo em que estamos rindo, queremos chorar, porque tudo muda rápido, e a consciência de Enzo sobre isso é uma tremenda mensagem. Porque apesar de tudo, ele sempre pode ser melhor, e sabe disso.
É algo em que podemos nos espelhar, e essa é a principal mensagem da história.
Li esse livro pela Reader’s Digest, e a diagramação está muito decente—crua, mas competente. A capa é linda, e tem muito haver com o título e com a história, e eu gostei muito, apesar de já ter dito que, nesse livro, ela não foi um fator determinante para colocá-lo na minha lista de leitura.
Para aqueles que querem um livro fofo, leve, apaixonante, que trata de mensagens reais e maravilhosas, esse é a pedida certa. Um dos mais lindos que já li, e apesar de não ter me feito derramar lágrimas, sempre terá um lugarzinho especial no meu coração sensível e emocional de leitora. 
Avaliação


>> Esse post está participando do Top Comentaristas Nº 07 - FORMULÁRIO



A Garota dos Pés de Vidro - Ali Shaw

Seguindo o meu próprio padrão na escolha de livros, valendo lembrar de que sou louca por capas, vou começar essa resenha dizendo que a primeira coisa que me apaixonou nesse livro foi a sua capa maravilhosamente linda e instigante. Tudo bem que, para mim, as capas são um fator determinante para levar ou não um livro para casa, e que, as vezes, o livro não faz o menor jus a beleza delas, mas esse foi um dos poucos livros em que a capa me apaixonou tanto quando a história que ele trás em suas páginas.
Na verdade, todo esse livro me apaixonou. Desde a sinopse misteriosa e fantástica até o final da história, e vou ressaltar desde já que talvez esse seja um dos melhores livros de fantasia que já li em toda a minha vida. Vale lembrar que já li muitos livros de fantasia. Muitos.
O livro trata da história de dois personagens: Midas, um tímido fotógrafo que convive com os traumas de um passado triste, e Ida, uma jovem aventureira que está, lentamente, se transformando em vidro. No arquipélago de Hauda’s Land, os dois acabam se encontrando, e após se tornarem amigos, buscam juntos a cura para o problema dela, que pode invariavelmente matá-la.
Vendo isso, qualquer um pode pensar que essa é uma história de fantasia para adolescentes, mas não é. Desde as primeiras páginas, Ali Shaw nos apresenta uma história densa, intercalando a história de Midas e Ida com flashes do passado de Midas e informações sobre Ida e sua família. A escolha do autor de escrever uma história que vem e vai entre presente e passado foi peculiar, deliciosa em certas partes, entediante em outras, mas absolutamente original e é, sem dúvida uma das melhores partes do livro.
O autor criou todo um universo de fantasia que se situa em Hauda’s Land, um universo impressionante e surreal. Em certas partes, você pensa que as passagens são apenas delírios dos personagens, e depois pensa que não. O universo fantasioso de Shaw, mesclado com a melancolia da narrativa que nos é apresentada tiram esse livro de qualquer categoria já existente para ser enquadrada. A história por si só é uma categoria a parte, suas mensagens subentendidas e a personalidade dos personagens, tão densas e reais que podiam se tratar de pessoas que conhecemos em nossas vidas. O autor conseguiu estampar nos personagens uma profundidade quase mágica, pessoas que erram por amor, que acertam por amor.
A narrativa é um pouco lenta, o que pode irritar leitores que preferem histórias mais dinâmicas, e demora um pouco para engrenar. Mas da metade até o final a história simplesmente te prende, e seus olhos não se desgrudam das páginas. O final, surpreendentemente, não me decepcionou—foi condizente com toda a história e o rumo tomado por ela.
Admito que não sou muito fã da Editora Leya e da sua diagramação, mas tenho que tirar o chapéu para o trabalho feito nesse livro. Como já me rasguei em elogios no começo dessa resenha, a capa é simplesmente perfeita, mística e misteriosa, assim como toda a história, e encontrei poucos erros de português, nada que atrapalhe demais na leitura.
Para aqueles que estão procurando algo que foge do padrão, uma história original e nova, eu recomendo totalmente esse livro. Para aqueles que estão procurando uma boa história de fantasia, eu recomendo totalmente esse livro. Para aqueles que querem simplesmente uma boa história, eu recomendo esse livro, ou seja, eu recomendo esse livro para qualquer pessoa que goste de ler. É uma das histórias mais perfeitas que já li, e que definitivamente valeu a pena.

>> Esse post está participando do Top Comentaristas Nº 06 - FORMULÁRIO


A Menina Que Não Sabia Ler - John Harding


A primeira coisa que me atraiu nesse livro, foi o título e a capa, atributos fundamentais para me fazerem pegar um livro e lê-lo. Depois de ler a sinopse, então, eu estava crente de que esse seria um típico romance sobre a descoberta das palavras e o conhecimento da leitura.
Era de se esperar: segundo a sinopse, o livro trata da história de Florence, uma garota de 12 anos que mora numa mansão na Nova Inglaterra de 1891, sem nenhuma presença familiar próxima, tendo como companhia apenas os criados da mansão e o irmão mais novo, Giles. Sem nenhuma perspectiva de vida, ela acaba descobrindo a biblioteca da casa, e se apaixona pelo local. Sem ninguém para ensiná-la a ler, a menina aprende sozinha a desvendar as palavras, e essa será a porta de uma grande aventura.
Não é bem assim que a história se desenvolve; embora apareça sim o desenvolvimento do amor de Florence pelos livros, a história passa superficialmente por cima disso tudo, se focando mais nos mistérios da mansão em que ela mora, Blithie, e no aparecimento de uma estranha personagem que significa tudo o que ela mais teme, a Sra. Taylor, sua professora e, mais futuramente, aquela que quer levar seu irmão embora.
A trama é narrada pela própria Florence, o que nos dá uma dimensão grande do terror passado pela garota. No momento em que a professora aparece, tudo o que Florence mais quer é que ela deixe seu irmão em paz e suma, o que são pensamentos considerados um pouco pesados para uma garotinha de apenas 12 anos. Mas a história segue toda uma linha densa e sombria, contrariando a impressão inicial de que esse é apenas um romance; do meio do livro até o final, ele se transforma num eletrizante suspense com mesclas de terror que, com certeza, agradarão bem os admiradores do gênero.
A narrativa de John Harding começa de forma morna e desinteressante—durante diversos momentos, tive vontade de abandonar o livro. Mas à medida que a história deixa para trás o amor de Florence pelos livros e se foca na aterrorizadora professora, o livro dá uma impressionante guinada, e o autor nos envolve em uma narrativa mórbida e macabra, com detalhes aterrorizantes e desnecessários, além de pouco apropriados para a faixa etária do livro. Em compensação, esse foi um livro que não me decepcionou em seu final, mantendo, até mesmo nele, todo o clima sombrio no qual a trama se desenrola.
Clima que nada condiz com a idéia proposta na sinopse, o que definitivamente me irritou. Eu esperava uma história e encontrei outra, e foi muito decepcionante não fazer a menor idéia do que estava lendo. Pode ser só uma frescura de leitora minha, mas eu acho que, se esse é um livro de terror, deveriam deixar  isso bem claro desde o começo, principalmente se tratando dos possíveis leitores. Se algumas passagens pareceram fortes para mim, não quero nem imaginar como elas pareceriam para uma criança. Esse é um ponto negativo do livro, mas o único significante que eu posso citar.
A Editora Leya fez um bom trabalho com a diagramação, e não encontrei erros que atrapalhassem a leitura. A capa, tal como a sinopse, não condiz muito com a história, mas fazendo justiça, é muito bonita: simples e sem floreios, assim como a história.
Para fãs de suspense e terror, que gostam de descrições pesadas, narrativas cruas e diretas, esse livro é uma boa pedida. Mas se quer um romance leve para se distrair, não chegue nem perto. Algumas passagens podem ser demasiado sufocantes, o que explica o porque de eu ter esse livro tão vivo em minha memória.

>> Esse post está participando do Top Comentaristas Nº 04 - FORMULÁRIO


Uma Vida Interrompida (Memórias de um anjo assassinado) - Alice Sebold


Quando encontrei esse livro na biblioteca da minha cidade, eu não sabia realmente o que esperar dele. Sempre tive o costume de escolher livros pelas capas, e interessada pela desse, acabei pegando-o emprestado, sem saber a leitura que viria pela frente.  É um livro relativamente antigo, e eu já o li faz algum tempo, mas até hoje tenho as passagens muito vívidas na memória, por ser realmente uma história muito marcante.
O livro conta a história de Susie Salmon, brutalmente estuprada e assassinada na década de setenta, onde os recursos atuais, como o DNA, ainda não existiam.  É um livro de esperança e humor, embora tenha como pontapé um acontecimento triste, e, infelizmente, muito visto nos dias atuais.
A culpa do humor da história foi a escolha certeira de Alice Sebold de colocar a própria Susie como narradora. Desde as primeiras páginas, nós sabemos que ela está morta, e também nos é revelado o responsável por sua morte, embora ela não possa fazer nada sobre isso. Do céu, Susie narra para nós todos os acontecimentos após a sua morte—a luta de seu pai arrasado para conseguir justiça, o distanciamento da mãe da família, a luta da sua irmã na pressão de se tornar a substituta, e ser, ao mesmo tempo, a menina mais popular e rejeitada da escola e a confusão do irmãozinho de apenas 4 anos, que quer apenas que os pais parem de chorar e que sua irmã volte logo “de viagem”. Ao mesmo tempo, ela também narra os cuidados do assassino para não ser descoberto, as investigações infrutíferas da polícia local, a vida do garoto de quem ela gostava e também de uma garota distante, estranhamente envolvida na história.
Em meio à tudo isso, temos também os devaneios de Susie com seus sentimentos e suas lembranças, devaneios bem adequados para uma garota de apenas quatorze anos. Ela sabe da injustiça de tudo aquilo, e às vezes fala de seus sonhos para o futuro, num tom ao mesmo tempo infantil e maduro.
Foi isso que realmente me marcou. A história por si só não tem grandes reviravoltas, com alguns acontecimentos isolados distribuídos pelas páginas, mas foi pela protagonista que eu realmente me apaixonei. Enquanto assiste impotente do Céu tudo se desenrolar lá embaixo, ela nos passa lições importantes de coragem, esperança e fé, torcendo pela reconstrução de sua família e pela justiça que sabe que não virá. Uma situação triste, mas que pelas palavras da resignada Susie, acaba se tornando uma fábula para o leitor.
A escrita da autora é simplesmente adorável, ao mesmo tempo leve e densa, de modo que nos envolvemos na história desde a primeira página. A sequência de acontecimentos é dinâmica, não muito detalhada, mas ainda assim prende o leitor de uma forma inacreditável.  Terminamos o livro e ficamos com aquele gostinho de quero mais, apesar de não haver realmente uma continuação.
Minha única reclamação é sobre o final. Depois de uma história tão emocionante, ele se revela fraco e insatisfatório. Nada que realmente estrague a leitura, mas me decepcionou bastante. A diagramação da Ediouro, pelo que me lembro, foi satisfatória—simples, mas sem muitos erros. Nada notório. E a capa, que foi o que realmente me interessou à princípio, não faz jus à história, que é linda, marcante e maravilhosa.
Ao que me consta, há uma adaptação cinematográfica para este livro, que no Brasil foi traduzido como Um Olhar Do Paraíso, estrelado por Saiorse Ronan. Não tenho interesse no filme, porque, seguindo meu modesto conhecimento sobre adaptações cinematográficas, ele não vai conseguir passar nem metade da emoção do livro. Procurando sobre isso, porém, acabei encontrando banners de divulgação tão maravilhosamente lindos que mereciam ser a capa do livro—isso, é claro, é apenas uma opinião minha.
Parabéns para Alice Sebold e para sua ótima história, que, mesmo depois de tanto tempo, permanece vívida em minha memória, com suas lições de esperança e renovação. 
Avaliação



>> Esse post está participando do Top Comentaristas Nº 03 - FORMULÁRIO