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Repeteco – Bryan Lee O'Malley


Katie levava uma vida normal e tinha grandes planos para o futuro: abrir um novo restaurante. Por ser uma chef talentosa e muito elogiada e ter encontrado o local perfeito, ela já estava no caminho certo para realizar seu sonho. Porém algumas coisas começam a dar errado: as obras estão atrasadas, uma garçonete do seu restaurante atual se machuca, seu relacionamento com o chef jovem azeda e seu ex-namorado reaparece para bagunçar sua cabeça.
Quando tudo parece desesperador, eis que surge uma nova chance. Na calada da noite, uma garota misteriosa aparece em seu quarto juntamente com a lembrança de um sonho, que a faz ter vontade de vasculhar a gaveta da cômoda que estava ali antes de se mudar. Lá dentro encontra uma caixinha contendo um cartão de instruções, uma caderneta intitulada “Meus Erros” e um misterioso cogumelo.
Katie decide se arriscar e cumpre as regras. Quando acorda, nota que sua vida ganhou um repeteco e ela vai poder refazer o erro que tinha cometido anteriormente. E cada vez que uma nova coisa sai errado em sua vida, ela não consegue resistir à vontade de mudar tudo novamente. Porém, todos sabem que com o destino não se mexe. E Katie vai acabar descobrindo isso de uma forma nada agradável.
Gosto bastante de Graphic Novels, então sempre incluo alguma nas minhas leituras. A da vez foi essa de Bryan Lee O'Malley. O autor/ilustrador é bastante conhecido por seu trabalho com a série de HQ Scott Pilgrim, que já foi adaptado para os cinemas. Nunca tinha lido nada dele e sempre escuto ótimas críticas, então queria conhecê-lo. Gostei bastante dessa primeira experiência.
A gente consegue se identificar com Katie e seus problemas, que são bem reais. É uma leitura leve, rápida e também bastante reflexiva, que nos faz pensar na vida e inspira pensamentos mais profundos, como não podemos mudar algumas coisas, mas, sim, aceitá-las. E que conseguimos ser felizes com o que temos, mas precisamos ter coragem para modificar o que podemos.





Nova York: A Vida Na Grande Cidade – Will Eisner


Gosto bastante de HQs e Graphic Novels e ainda não tinha tido a oportunidade de ler um dos maiores nomes do gênero. Quando surgiu a oportunidade de ler esse exemplar de ninguém menos do que o genial Will Eisner, logo embarquei nessas páginas.
Nessa obra de mais de 400 páginas estão reunidas 4 Graphic Novels, escritas nos anos 80 e 90, com uma série de vinhetas, variadas histórias curtas. Algumas são interligadas, mas a maioria é independente. Nelas acompanhamos a vida (e a morte muitas vezes) cotidiana de Nova York, mas, como o próprio autor comenta na introdução, são “o retrato de uma cidade grande... qualquer cidade”, trazendo elementos que nunca mudam, como grandes edifícios, grandes áreas e grandes populações.
Há casos de amor, traição, esperança e desilusão. Pessoas felizes, outras miseráveis. Ricos e Pobres. Novos e Idosos. Comportamentos bons e outros brutais. Cenas cheias de possibilidade, outras bem trágicas. Etc. É a realidade que o autor via nas ruas e transferia para o papel de forma muito verdadeira.
Além de Eisner ter sido um exímio ilustrador e um incrível escritor, era também um observador brilhante. Nessas tramas, ele mostra a realidade crua, a individualidade do ser humano, seu descaso e sua crueldade. Também há uma grande carga emocional presente em suas páginas e muitas dos momentos ali retratados nos fazem refletir e até trazem tristeza ao nosso coração.




Tudo é tão realista que o leitor se sente dentro da história, passando por Nova York e vendo todas aquelas cenas se desenrolando bem na sua frente. Talvez você conheça alguém que tenha feito algo semelhante ou tenha você mesmo vivenciado algo ali retratado.







As Barbas do Imperador – Lilia Moritz Schwarcz & Spacca


Nesta maravilhosa Graphic Novel nacional, temos a oportunidade de conhecer melhor D. Pedro II, quem foi esse “Monarca Cidadão” de seu nascimento até depois de sua morte, o que fez pelo país, sua personalidade e modo de agir. Também conhecemos sua família e outras figuras da época, acompanhamos a queda da Monarquia e como se iniciou a República de maneira breve.
Mesmo sendo no formato de Quadrinhos, é bem completo e traz muitas informações importantes e fundamentais sobre D. Pedro II e sobre a História do Brasil, inclusive citando outros nomes relevantes para a situação do país na época e até mesmo antes e depois do período citado. Fala sobre política, escravidão, fotografia, cultura, artes, influências, etc.
No colégio aprendi essas informações, assim como a maioria dos estudantes nacionais (espero), mas não lembrava de todos os pontos citados, então gostei mais ainda que os autores tenham selecionado os detalhes mais importantes para trabalhar nesse quadrinho. Com certeza indico a leitura, inclusive para os estudantes. Não como único material para aprendizado e estudo, mas como um complemento ou até um resumo para lembrar as partes mais essenciais de forma leve, divertida e fácil.



O texto é realmente bem rico e de uma pesquisa incrível. O exemplar é uma adaptação do livro homônimo da historiadora e antropóloga brasileira Lilia Moritz Schwarcz (cofundadora da Companhia das Letras), e é um misto de ensaio interpretativo e biografia de D. Pedro II, que ganhou o prêmio Jabuti Livro do Ano em 1999.







O Idiota – Fiódor Dostoiévski – Em Quadrinhos por André Diniz


O Idiota, escrito por Fiódor Dostoiévski, é um dos maiores romances da Literatura Russa que sempre tive bastante curiosidade de conhecer, mas que ainda não tive a oportunidade. Então resolvi começar por esse exemplar, que é uma adaptação desse Clássico em formato de Graphic Novel, me dando a chance de conhecer um pouco mais sobre essa trama russa juntamente com o traço e expressividade do brasileiro André Diniz.
Essa foi uma experiência bem bacana e diferente. Confesso que foi um pouco difícil para mim o entendimento da obra, uma vez que não li a história original e que ao longo da trama poucas palavras foram utilizadas, sendo um livro complexo e quase sem diálogos. Isso me tirou um pouco da minha zona de conforto e me fez tentar entender os detalhes que o ilustrador queria passar através do traço.
Então recorri a resenhas da obra original para me auxiliar um pouco mais sobre esse enredo e me dar uma perspectiva maior de entendimento. Foi assim que, entendendo o que o autor queria transmitir, comecei a compreender melhor as ilustrações e o que cada uma delas representava.
Com uma crítica a sociedade, André Diniz conseguiu passar um pouco do clima frio e sombrio do país, trazendo traços mais grossos e nos apresentando um pouco sobre os valores invertidos que encontramos até mesmo nos dias de hoje (olha que o livro foi escrito entre 1867 e 1868), nos fazendo refletir em diversos momentos sobre as atitudes das pessoas e as nossas também.
Uma história sofrida, com personagens que retratam bem o ser humano, ao ponto que chega a incomodar com as atitudes egoístas. Esse título conseguiu me conquistar por vários motivos, além de me tirar da minha zona de conforto e me fazer tentar procurar saber mais detalhes, fiquei realmente encantada com a parte gráfica.
Indico essa leitura para todo mundo que goste de adaptações em Quadrinhos ou HQs de maneira geral. Mas recomendo também que tenha uma prévia noção da obra original, pois a leitura fica bem mais fluida e compreensível quando conseguimos entender melhor o contexto. O traço do André é incrível e conseguir fazer uma adaptação de um Clássico somente com ilustrações e pouco texto com certeza não é para qualquer um. Recomendo bastante!
Avaliação




Garota-Ranho #01 - Bryan Lee O'Malley & Leslie Hung


Como uma adoradora de quadrinhos que sou, quando vi o lançamento de Garota-Ranho pelo selo Quadrinhos na Cia, da Companhia das Letras, fiquei louca para ter esse volume em mãos. E assim que foi possível, li essa história em pouco tempo e fiquei querendo desesperadamente o volume seguinte, que infelizmente ainda não foi publicado aqui no Brasil. Agora, venho compartilhar com vocês todas as minhas opiniões sobre essa HQ.
Em “Garota-Ranho” conhecemos a história de Lottie Person, ume blogueira da moda que todos acham que leva uma vida incrível, mas isso é o que ela quer que as pessoas acreditem, porque na verdade sua vida não é nem um pouco tão glamorosa.
Seu nariz não pare de escorrer por conta da sua alergia, seu namorado há cinco anos a trocou por uma garota mais nova, e suas amizades não são bem verdadeiras. Em uma de suas idas ao médico, por conta da alergia, é atendida por um novo médico que lhe apresenta a um novo remédio, que, apesar de estar em fase de testes, promete ajudá-la e muito.
Quando Lottie conhece Caroline, uma menina linda que se assemelha com ela e parece ter a vida perfeita, ela logo a apelida de Coolgirl. O que não poderia imaginar, é que depois de uma noitada com a Coolgirl, em um dos seus momentos de tristeza no banheiro, um acidente acontece, deixando nossa protagonista neurótica com o que viu ou com que acha que viu, já que não tem muita certeza dos acontecimentos.
Agora, nossa Lottie tem que lidar com sua ex-estagiária, que parece ser obcecada por ela, a falta que sente do ex-namorado, e com tudo o que está se passando na sua cabeça, coisas que nem mesmo ela sabe direito.

Achei a história toda incrível, pois aborda um assunto sério de uma forma leve, com uma boa dose de humor e nos fazendo refletir o tempo todo sobre essa vida perfeita das redes sociais. Esse volume acabou de um jeito que precisamos muito ler a continuação.
As ilustrações de Leslie Hung são lindas e incríveis, e com traços únicos, o que deixa a história ainda mais gostosa de ser lida. Com uma escrita cheia de gírias, como as que utilizamos nas redes sociais, esse exemplar consegue nos conquistar em todos os momentos com uma narrativa que mistura suspense, drama, mistérios, sanidade, etc., tudo de um jeito delicioso e viciante.




Minha Coisa Favorita é Monstro – Emil Ferris


Desde que li a respeito dessa HQ, que foi inteiramente desenhada com (pasmem! :O) Canetas Bic, fiquei louca para conhecer essa história e o traço da autora. Fiquei ainda mais maravilhada quando descobri que ela desenhava quando estava em seu processo de recuperação da febre do Nilo Ocidental, causada pela picada do mosquito Culex, que atingiu seu sistema nervoso central e, entre outros sintomas, causava delírio, paralisia, etc. Então essa obra demorou seis anos para ser concluída. Por todos esses motivos, resolvi embarcar na Chicago dos anos 1960 pelos olhos de Karen Reyes assim que me foi possível.
Nessa HQ conhecemos Karen Reyes, uma menina de dez anos que vive com a mãe e o irmão e que ama histórias de terror. Em seu diário, ela se desenha como uma jovem lobismoça, e narra sua vida cotidiana, contando um pouco sobre as coisas que acontecem ao seu redor, e também suas aventuras como uma detetive que está tentando desvendar o mistério sobre quem assassinou a bela e enigmática Anka, vizinha do andar de cima.
Conhecemos então um pouco mais sobre nossa protagonista, que queria se tornar um monstro para todos os seus problemas desaparecerem. Acompanhamos ela em sua rotina, suas dificuldades na escola e com amigos, os segredos que sua mãe e seu irmão guardam, pedaços do cotidiano de diversas pessoas que moram na região, etc. Tudo o que ela passa, vivencia, descobre e escuta, incluindo cenas e objetos, desenha nas páginas de seus cadernos, assim como capas de revistas de terror.
E também temos a oportunidade de conhecer melhor o passado e Anka através de fitas que Karen escuta, nas quais entendemos sua vida, as dificuldades e coisas terríveis que enfrentou na época da Segunda Guerra Mundial e do holocausto. São trechos fortes, que mexem bastante com nossas emoções, principalmente porque sabemos que tudo aquilo realmente era baseado em fatos reais, e muitas pessoas enfrentaram coisas terríveis e abomináveis na época.
Além disso tudo, a autora também aborda diversos assuntos importantes, como orientação sexual, sexualidade, bullying, doenças, traição, racismo, crimes, violência, crueldade, discriminação, abuso infantil e sexual, entre muitos outros. Tudo foi bem construído e surgiu no enredo de forma natural. É uma leitura pesada, que mexe com nossos sentimentos e muitas vezes temos que parar para respirar. Acompanhamos tudo na visão de uma menina ingênua de 10 anos, que ainda não conhece muito da vida, mas relata o que vê, então ela não entende tudo o que descobre (ainda que nós, sim – e dói).
Na minha opinião, o mais fantástico de tudo é a parte gráfica da obra (ainda que o enredo, obviamente, também seja). Como comentei no início da resenha, foi completamente escrita e desenhada em Caneta Bic e podemos afirmar que se tem algo que Emil Ferris tem é talento de sobra. Suas ilustrações são perfeitas, completas e bem estruturadas. Em diversos momentos fiquei abismada com tamanha capacidade de criar algo tão bonito e bem feito assim com um material tão simples. Até reproduziu quadros famosos magnificamente!
Com certeza indico muito essa leitura para todos aqueles que curtem obras excepcionais, completas, bem desenvolvidas e que prendem o leitor de uma maneira incrível. Foi bem bacana ver a trama crescer a ficar cada vez mais profunda e reflexiva conforme as páginas eram avançadas. Não foi uma leitura que fiz direto, porque me sentia esgotada e triste em diversos momentos, mas foi bem interessante acompanhar essa história, principalmente por conta da protagonista, essa menina encantadora, inteligente e curiosa, que tem um ótimo coração e uma grande força dentro de si.
Avaliação





A Revolução dos Bichos: Em Quadrinhos - George Orwell & Odyr

Os animais que residiam na Granja do Solar começaram a ficar cansados da exploração e dos maus tratos que sofriam pelo humano que controlava o lugar. Para transpassar este problema, decidiram se rebelar contra o dono da fazenda e tomá-la com o objetivo de instituir um novo sistema cooperativo e igualitário no local. Com o novo lema “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”, eles têm como objetivos encontrar o melhor para todos.
Porém, depois de algum tempo, os porcos, considerados os bichos mais inteligentes, começam a perceber que podem ter alguma vantagem e por conta disso passam a querer usufruir de mais privilégios, controlando as coisas e tomando suas próprias decisões, baseados no que acham melhor para si. E é assim que, aos poucos, começam a construir um novo sistema de opressão e controle, ainda pior do que o anterior. Muitos animais não entendem muito o que está acontecendo e os que percebem acabam sendo silenciados à força. E é assim que uma nova tirania é instalada no local, mais opressiva, mais sangrenta e com menos sentimentos de esperanças.
Devo começar essa resenha confessando que eu nunca li “A Revolução dos Bichos” na edição normal, ou seja, a história completa criada por George Orwell. Porém, já vi várias pessoas comentando a respeito de seus livros, das críticas que ele faz em suas histórias e de quão importantes elas são. Dito isso, devo dizer que já tinha curiosidade de ler todas as suas obras, inclusive essa em específico, mas acabei enrolando e nunca lendo de fato. Até que a Companhia das Letras, pelo selo Quadrinhos na Cia., resolveu publicar uma edição maravilhosa em quadrinhos adaptada e ilustrada por um artista nacional, o Odyr. Eu fiquei completamente apaixonada por seu trabalho e logo decidi que deveria conhecer essa obra sob sua perspectiva, e foi o que fiz.
É claro que uma edição adaptada nunca é igual a sua original, porém, mesmo sem ter lido essa, acredito que Odyr fez um ótimo trabalho com a adaptação, já que li resenhas de outras pessoas da obra completa e acho que ele conseguiu passar toda a essência de lá para cá, tanto através do texto quanto das ilustrações, só a apresentando de uma forma mais direta e visual, o que eu particularmente adoro. E no futuro também vou ler a edição completa em prosa, mas já fiquei feliz de ter conhecido essa história.
Um dos pontos mais importantes que podemos perceber nessa leitura é a crítica a regimes totalitários que Orwell fez. E fazendo uma análise maior, podemos perceber que não se restringe apenas a governos, mas também qualquer grupo de pessoas que possui um líder cujo objetivo não é a liberdade ou o melhor para todos, mas, sim, algo específico que restringe muitos com a intenção de chegar a um resultado que supostamente seria o melhor para todos, mas que na realidade só é bom para uma minoria.
"Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros"
De qualquer forma, aqui em sua obra ele estava fazendo uma sátira especificamente contra a URSS ou, na verdade, contra os discursos e ações de Stálin no período da mesma. Inclusive seus personagens foram baseados diretamente nele e em outros líderes daquele momento. Para Orwell, o discurso socialista dele acabou criando suas próprias direções, mais voltada para a tirania do que para o bem do coletivo. E, através de mentiras, opressões, informações manipuladas e abuso de poder, ele acabava controlando a população, fazendo com que o que parecia ser algo melhor, na verdade voltasse quase ao que era antes, mas de forma ainda pior e mais opressiva.
“O que este livro nos diz é que aqueles que renunciam à liberdade em troca de promessas de segurança acabarão sem uma nem outra”. Essa frase, de Christopher Hitchens, que, inclusive pode ser encontrada na própria orelha dessa edição, é um ótimo resumo sobre o que Orwell nos passou com sua história.
Acho que também podemos dizer que existe uma crítica ao poder, a sociedade, e também ao comportamento do ser humano que, de acordo com o que é mais vantajoso para si mesmo, acaba usufruindo desse poder e abusando do mesmo. Também dá para notar que com alienação e manipulação o controle acaba encontrando seu caminho, e as pessoas só percebem o que está acontecendo quando já é tarde e eles precisam encontrar alguém para substituir essa pessoa do topo, mas a próxima vai acabar tendo ações semelhantes, ainda que as motivações primárias sejam diferentes. E tudo isso acaba se tornando um ciclo, e assim segue repetidamente.
“As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível dizer qual era qual.”


Habibi – Craig Thompson

Gosto muito de Graphic Novels, mas confesso que não sei nada de traços, cores, etc. O meu intuito quando pego uma para ler é passar boas horas na companhia de uma ótima história, igual acontece com os livros. Quando vi a capa de Habibi (sempre as capas que primeiro me chamam a atenção) fiquei interessada em saber mais sobre o que era, e após ler a sinopse sabia que precisava lê-la o quanto antes.
Quando peguei essa graphic novel nas mãos pela primeira vez, não imaginava que seria tão extensa quanto é (tem quase 700 páginas!), mas a leitura é rápida e tão envolvente que quando terminei só fiquei pensando que queria mais.
A história criada por Craig Thompson fala do amor entre dois escravos, Dodola e Zam. Ela foi vendida ainda criança (tinha apenas 9 anos de idade) pelo pai para um escrivão, tornando-se sua esposa. Seu marido não era uma pessoa ruim e até a ensinou a ler e escrever, porém ela perdeu toda a sua infância e inocência ao viver com ele. Até que saqueadores invadiram sua casa, mataram seu marido e a levaram. Dodola então conhece Zam, um menino que ela salva e adota, e eles fogem e ficam refugiados no deserto. Ela cuida dele, alimenta-o e o ensina a ler e escrever, contando histórias. Até que o destino os separa. E eles vão passar por muitas coisas até se reencontrarem novamente.

A leitura é densa e desperta os mais variados sentimentos no leitor, principalmente os ruins, mas não de uma maneira negativa. Foram várias as vezes em que eu precisei parar a leitura porque a passagem que havia lido tinha sido muito para minha cabeça processar, de uma forma que fiquei bem chateada. A trama foi construída por Craig com maestria e mistura drama com ação e suspense, partes comoventes, encantadoras e algumas até cômicas.


Todo o texto de Craig Thompson é de uma riqueza cultural magnífica, afinal ele pesquisou e trabalhou nessa obra durante sete anos. Ele recorreu ao Corão e às Mil e uma noites para escrever essa graphic novel, inspirando-se na caligrafia árabe, no estilo, e nas narrativas do primeiro, e criou um cenário cheio de lendas e histórias, baseado no segundo. Habibi, apesar de ser ambientado no Oriente, não se passa em nenhum país conhecido, mas mesmo assim há crítica social, incluindo venda de pessoas como escravos, apresenta histórias sobre a cultura árabe, fala de ligação entre amor e religião, inclusive a influência dessa última na vida cotidiana das pessoas, e também sobre a visão cultural e sociológica da mulher como objeto.


Gostei imensamente da construção dos personagens, todos eles são complexos e humanos, alguns nos cativam e ficamos torcendo por eles. Nenhum dos que foram incluídos na história estavam ali sem nenhuma razão, pelo contrário, cada um serviu como parte importante em algum momento.


Sobre a parte gráfica, como comentei anteriormente, não posso dar detalhes técnicos a respeito das ilustrações, mas como gosto pessoal posso afirmar que as achei de muito bom gosto, lindas, e muito bem feitas, inclusive acredito que foram perfeitas para representar a história através de imagens e que outro artista não teria feito tão bem. Além disso, acho que o traço combinou com a forma de narrativa e com o cenário. Elas conseguiram transmitir tudo o que as palavras queriam, e me senti envolvida de uma forma que prestava atenção em tudo atentamente para não perder detalhes.


Todas as ilustrações foram feitas em preto e branco, incluindo a da capa. Falando em capa, adorei ela, a cor vermelha e a fonte utilizada chamam muito a atenção, e a lombada fica maravilhosa na estante. A fonte e espaçamento no miolo também estão ótimos para uma leitura confortável.

Indico a leitura para quem tem interesse em uma história tocante, mais pesada e intensa, muito bem escrita e ilustrada. E, acima de tudo, repleta de amor, através da representação mais bonita desse sentimento.

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As Aventuras de Tintim: Repórter do "Petit Vingtième" no País dos Sovietes – Hergé


Acho que todo mundo já ouviu falar no jovem repórter Tintim e seu fiel amigo, Milu, personagens carismáticos criados por Hergé em 1929. Eles se tornaram famosos pelo mundo, com vinte e quatro (sendo a última incompleta por conta da morte do autor) edições dos álbuns de história em quadrinhos retratando as aventuras dos dois. Também houve muitas adaptações tanto para cinema, quanto para TV e literatura, e até mesmo para jogos de videogame.
Já tinha vontade de ler esses quadrinhos de Tintim há um bom tempo, mas nunca tinha tido a oportunidade. Agora que tive, resolvi começar do primeiro para poder acompanhar a evolução dos personagens conforme for lendo as próximas edições.

Nesse primeiro álbum podemos acompanhar as aventuras de Tintim na Rússia Soviética quando ele vai fazer uma reportagem para o jornal Petit Vingtiéme e acaba descobrindo muitos pontos negativos do regime comunista. Mas toda hora aparece algum membro da GPU para impedi-lo de ir adiante, tentando a todo custo acabar com seus planos e até com sua vida. É com a ajuda de Milu que ele consegue se salvar e ainda dá o troco em todos esses homens (mesmo que não de forma intencional).
Gostei bastante da história desse álbum, e achei muito interessante o pano de fundo da aventura, principalmente a maneira utilizada pelo autor para criticar o comunismo de uma forma leve, mas que alertava as crianças e jovens da época.

 Também pude notar que a parte cômica é bem presente, e me fez lembrar de desenhos animados em alguns momentos, quando o personagem sofre algum acidente, por exemplo, e ainda sai andando como se nada tivesse realmente acontecido. Só achei que algumas das situações foram forçadas além do necessário para dar certo.
Tintim, nosso protagonista querido, é bem atrapalhado e também muito corajoso. Ele não gosta de injustiças e, se não fosse por Milu salvando-o e apoiando-o o tempo todo, ele estaria em boas enrascadas por conta disso tudo. Mas que bom que cachorros são melhores amigos do homem e esse fiel cãozinho mostra que está ali para ajudá-lo, custe o que custar (mesmo que fique sem comer por um bom tempo).

Nesse primeiro contato com Tintim pude notar que os únicos personagens já conhecidos por mim que apareceram foram justamente ele e Milu, então ainda não encontramos com vários outros personagens e vilões memoráveis. Também não sei se os malvados desse volume irão aparecer nos próximos porque ainda não os li, mas acredito que não.
A história como um todo tem alguns problemas de continuidade, isso se deve ao fato de que Hergé a publicou originalmente através de tiras semanais nas páginas do suplemento juvenil Le Petit Vingtième, do jornal belga Le XXe Siècle, e só depois essa coleção foi unida e transformada em um livro.

Sobre a parte gráfica, o quadrinho é todo em preto e branco, com os traços originais do belga Hergé, exceto pela capa que é colorida – e linda! Todos os próximos volumes são coloridos, já que Hergé refez os traços e colocou cores em todas as suas outras obras, exceto nessa primeira história. As folhas são brancas, e em papel couché (aquele que parece de revista, porém mais grosso), e o formato da edição é maior do que os padrões dos livros, e tem 22.00 x 29.50 cm.


Para quem tem interesse em saber, todos os volumes foram lançados no mesmo formato pelo selo Quadrinhos na Cia., da Companhia das Letras, e acho que vale muito a pena ter todos na estante, tanto por conta das histórias fantásticas, quanto pelos traços do autor, além do mais, todos os álbuns no mesmo padrão com certeza ficam lindos na estante.

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