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A Faca Sutil - Fronteiras do Universo #02 - Philip Pullman

É incrível como o tempo nos transforma a cada dia, se não é possível as vezes nos darmos conta disso no dia a dia, na releitura de um livro isso com certeza fica visível, já que as vezes livros que não chamaram tanta atenção em uma nova leitura ganham uma nova opinião a seu respeito. Foi assim com A Faca Sutil, segundo volume da série Fronteiras do Universo, publicado pela Suma de Letras e escrito por Philip Pullman.
Após seguir seu pai para outro mundo, Lyra Belacqua se encontra em uma cidade abandonada onde ela acredita estar sozinha até esbarrar com Will, um jovem que parece ter tanto a esconder quanto ela. Will está em busca de seu pai, enquanto Lyra quer saber mais sobre o pó, o que estes dois jovens não sabem é que estão destinados a um objetivo maior juntos, e que devem buscar por um objeto que sequer sabiam existir!
Eu não consigo me lembrar quanto tempo faz da minha primeira leitura de Faca Sutil, eu arrisco que quase dez anos, o fato é que nos últimos anos eu tenho lido e visto materiais a respeito de outras dimensões, física quântica e sobre a energia inteligente que a tudo permeia, então a leitura desta vez fez muito mais sentido do que na primeira vez, já estes temas são muito presentes na narrativa em terceira pessoa de Pullman.

Pullman embora criei uma estória que soa infanto-juvenil, na verdade criou um universo complexo que pode dar nós em adultos facilmente, isso porque como citei anteriormente ele trabalha com conceitos que não fazem parte do dia a dia. Não trata-se assim de uma fantasia previsível menos ainda clichê. É até bastante realista em alguns momentos, visto que alguns destes mundos, um deles seria o nosso, têm realidades muito similares as nossas.

Lyra está em constante transformação, desde que saiu de Oxford em A Bússola de Ouro, ela tem amadurecido, aprendido não só novas informações, mas desenvolvido certa sabedoria. Infelizmente este aprendizado não se dá pelo amor, mas em cima de dor e luta, mas ela é uma garota determinada e que consegue controlar bem seus medos. Muito observadora este acaba sendo seu trunfo para tomar atitudes na hora do improviso.

Will é um jovem que amadureceu na força. Sua mãe é mentalmente instável o que fez com que ele desde muito pequeno aprendesse a se virar não só para sobreviver, mas para cuidar da mãe e manter as aparências evitando que outras pessoas percebessem que após o sumiço do pai a mãe não foi capaz de lidar com a pressão.

Além de acompanhar Will e Lyra, o livro têm capítulos que acompanham as feiticeiras, especialmente Serafina Pekkala que já apareceu no livro anterior. Após uma reunião de feiticeiras elas resolvem que precisam tomar partido diante da guerra que está se formando, e que proteger Lyra é a missão delas. Assim acompanhamos estas mulheres na busca por Lyra no outro mundo. Estas feiticeiras são diferentes do esperado, e veem o mundo de uma forma única.

Ao mesmo tempo temos alguns trechos de Lee Scoresb, que recebe uma missão e passa a procurar Stanislaus Grumman, um homem misterioso que parece saber sobre os mundos e como entrar e sair deles. Este personagem é citado logo no início de A Bússola de Ouro, mas é só nesse livro que ele aparece e seu papel na trama é surpreendente!

Nas páginas finais do livro o autor não nos poupa, e cenas tristes são frequentes. E já deixa a dica que o próximo e último livro da trilogia, A Luneta Âmbar, não deve nos poupar de luta e sangue.


A Bússola de Ouro - Fronteiras do Universo #01 - Philip Pullman

Em 2007, antes do lançamento do filme eu li A Bússola de Ouro, do autor Philip Pullman, lançado na época pela editora Objetiva. Muitos anos se passaram, eu até cheguei a ler o segundo livro da série, mas a verdade é que já esqueci de muita coisa, especialmente do segundo volume. E em se tratando da Trilogia Fronteiras do Universo a fantasia é mais complexa. Então quando vi a capa do relançamento pela Suma de Letras eu tive certeza que havia chego o momento certo de reler e finalizar a série!

Lyra Belacqua vive pela enorme universidade de Jordan em Oxford, sua vida entre os telhados e guerras infantis com outras crianças pela cidade são sua única preocupação, e ela não deseja mais nada além da vida simples que tem. Entretanto após participar sem querer de uma reunião dos catedráticos da universidade e descobrir sobre o pó, ao mesmo tempo em que estranhos boatos sobre crianças desaparecendo em diversas cidades, ela acaba sendo convidada a ir para o norte por uma estranha mulher. Lyra parte para Londres, onde vai de repente se ver fugindo e ao mesmo tempo buscando por seu amigo Roger e por seu tio Lorde Asriel. Uma aventura que tem onde começar, mas não tem onde terminar.

Lyra tem apenas onze anos, mas tem um perfil de uma criança que frequenta muito as ruas, e sabe se defender. Convive muito com os meninos, logo não é uma criança chorona ou medrosa, ao contrário tem a língua maior que a boca e atitude de sobra mesmo quando os ventos não estão a seu favor. Quando ela acaba com a Sra. Coulter em Londres ela começa a amadurecer, não apenas para se aproximar mais dos adultos, mas para compreender a lógica do mundo, no caso do mundo com elementos mágicos. Seu crescimento portanto é muito interessante, de menina respondona e que só fazia o que queria, até uma mentirosa e ardilosa é visível, mas ela não muda seu caráter, se ela mente é para se proteger. Sua luta é sempre pelo bem, ela quer ajudar que ama.

O que eu sempre achei interessante desde a primeira leitura da obra foi os elementos mágicos que o autor explora. O modo como ele os vê têm diversos paralelos com a física quântica, daí um pouco da complexidade da estória que diversas vezes tenta explicar o que é o pó, por exemplo, que eu entendo como a energia que a tudo circula e está. Também surge o conceito de mundos paralelos que existem ao mesmo tempo que o nosso. Com essas possibilidades a partir da física a realidade do livro parece mais realista, embora não tanto quando pensamos nos daemons, os animais que cada ser humano possui desde o seu nascimento (aqui podemos até pensar nos animais do poder através do xamanismo, mas nesse caso eles não têm materialidade). Outros aspecto não tão real são as feiticeiras exploradas por ângulos interessantes, já que elas vivem ligadas ao elementos naturais, a natureza, e usam galhos para voar.

Pantalaimon é o daemon de Lyra - os daemons são como partes da alma personificadas em forma animais que só tem forma definitiva depois da puberdade.  Eles poderiam ser definidos como a sombra da alma, pensando em conceitos junguianos. Pan, como é chamado por Lyra sente tudo que sua dona sente e pensa, e ela o mesmo com ele, assim eles são como um corpo só dividido em duas partes. Uma simbiose perfeita que se apoia e precisa viver com o calor e amor que um doa para o outro, separá-los é causar sofrimento e muita dor!

A vilã Sra. Coulter, é uma criatura vil, sem amor e com um coração frio, embora pareça gostar de Lyra ela não se importa quem terá que sacrificar para alcançar seu objetivos. Pela estória de vida dela narrada, ela sempre foi assim, sem empatia pelos que a circundam, embora eu não goste nada dela, é do seu mico leão dourado que eu menos gosto, ele é cruel e sádico, gosta de maltratar os daemons dos outros. O estranho sobre ela ainda é que ela faz as coisas não por crença ou convicção, mas pelo poder, pelo puro poder, ela não demonstra nada além dessa sede desenfreada por ser dominadora.

Os gípcios são como ciganos, eles são fundamentais na fuga de Lyra e são eles quem contam a ela sua própria estória, ou diria a verdade sobre sua vida e futura missão. São um povo cheio de tradições, e percorrem canais pela Inglaterra com seu barcos. John Faa e Farder Coram são os dois principais, e fazem o papel dos mais sábios da trama.

Completando o clima diferente temos um urso de armadura, Iorek Byrnison, com personalidade de sobra e força sem igual, diferente dos ursos comuns tem polegares e facilidade para metalurgia. Além de toda uma cultura no seu lar, com uma estrutura monárquica inclusive.


Depois da Última Dança – Sarra Manning


2 Histórias. Uma no Passado, outra no Presente, que se fundem no tempo atual. Essa junção sempre me atrai. Por isso quis ler esta obra envolvente. O passado retrata 1943, quando uma jovem vai ao encontro de uma vida de glamour em Londres, vinda do interior e trazendo consigo apenas 1 casaco de pele e 2 vestidos. Seu sonho estava prestes a se realizar graças a sua ousadia, coragem e força de vontade.
Ela acabou onde queria, no Rainbow Corner, o mais famoso salão de danças frequentado por soldados americanos em Londres (realmente existiu! Eles iam lá dançar para se desligar dos terrores). A 2ª Guerra Mundial se fazia presente nesta época, nos bombardeios, na vida triste da população e ao redor do mundo.
Em 2003, Jane chega em King’s Cross, mesma estação que Rose desceu, com a diferença de que não conhecemos o motivo que a levou até ali. O que sabemos é que ela entra vestida de noiva em um bar procurando alguém com quem se casar. E Leo aceita.
Jane e Rose acabam se encontrando e seus destinos são entrelaçados. Leo é maravilhoso e tem muita importância na trama, pois foi a ponte para elas se conhecerem. Ele vence barreiras como drogas e alcoolismo, e reconhece um erro que cometeu no passado com a ajuda de Jane. Há romance, que não começa como tal, mas como uma ajuda mútua e com muitos erros e acertos de ambos, que se transformará em um bonito amor.
O pano de fundo do passado é a Guerra e o Rainbow Corner. Vemos com clareza que a autora pesquisou muito bem cada detalhe e nos transporta para a época como se realmente estivéssemos fazendo parte da história. A atualidade é cheia de surpresas e traz uma jovem que luta para sobreviver neste mundo conturbado e acha um jeito. Mesmo com os transtornos que enfrenta, o amor sobrevive.







A Bússola de Ouro - Fronteiras do Universo #01 - Philip Pullman


Em 2007, antes do lançamento do filme eu li A Bússola de Ouro, do autor Philip Pullman, lançado na época pela editora Objetiva. Muitos anos se passaram, eu até cheguei a ler o segundo livro da série, mas a verdade é que já esqueci de muita coisa, especialmente do segundo volume. E em se tratando da Trilogia Fronteiras do Universo a fantasia é mais complexa. Então quando vi a capa do relançamento pela Suma de Letras eu tive certeza que havia chego o momento certo de reler e finalizar a série! Ainda mais agora que os livros viraram série na HBO!

Lyra Belacqua vive pela enorme universidade de Jordan em Oxford, sua vida entre os telhados e guerras infantis com outras crianças pela cidade são sua única preocupação, e ela não deseja mais nada além da vida simples que tem. Entretanto após participar sem querer de uma reunião dos catedráticos da universidade, e descobrir sobre o pó, ao mesmo tempo em que estranhos boatos sobre crianças desaparecendo em diversas cidades, ela acaba sendo convidada a ir para o norte por uma estranha mulher. Lyra parte para Londres, onde vai de repente se ver fugindo e ao mesmo tempo buscando por seu amigo Roger e Lorde Asriel. Uma aventura que tem onde começar, mas tem onde terminar.

Lyra tem apenas onze anos, mas tem um perfil de uma criança que frequenta muito as ruas, e sabe se defender. Convive muito com os meninos, logo não é uma criança chorona ou medrosa, ao contrário tem a língua maior que a boca e atitudes de sobra mesmo quando os ventos não estão a seu favor. Quando ela acaba com a Sra. Coulter em Londres ela começa a amadurecer, não apenas para se aproximar mais dos adultos, mas para compreender a lógica do mundo, no caso do mundo com elementos mágicos. Seu crescimento, portanto, é muito interessante, de menina respondona e que só fazia o que queria, até uma mentirosa e ardilosa é visível, mas ela não muda seu caráter, se ela mente é para se proteger. Sua luta é sempre pelo bem, ela quer ajudar que ama.

O que eu sempre achei interessante desde a primeira leitura da obra foi os elementos mágicos que o autor explora. O modo como ele os vê tem diversos paralelos com a física quântica, daí um pouco da complexidade da estória que diversas vezes tenta explicar o que é o pó por exemplo, que eu entendo como a energia que a tudo circula e está. Também surge o conceito de mundos paralelos que existem ao mesmo tempo que o nosso. Com essas possibilidades a partir da física a atmosfera do livro parece mais realista, embora não tanto quando pensamos nos daemons, os animais que cada ser humano possui desde o seu nascimento. Outros aspectos não tão real são as feiticeiras exploradas por ângulos interessantes, já que elas vivem ligadas aos elementos naturais, a natureza, e usam galhos para voar.

Pantalaimon é o daemon de Lyra - os daemons são como partes da alma personificadas em forma animais que só tem forma definitiva depois da puberdade.  Eles poderiam ser definidos como a sombra da alma, pensando em conceitos junguianos. Pan, como é chamado por Lyra sente tudo que sua dona sente e pensa, e ela o mesmo com ele, assim eles são como um corpo só dividido em duas partes. Uma simbiose perfeita que se apoia e precisa viver com o calor e amor um do outro, separá-los é causar sofrimento e muita dor!

A vilã Sra. Coulter, é uma criatura vil, sem amor e com um coração frio, embora pareça gostar de Lyra ela não se importa quem terá que sacrificar para alcançar seu objetivos. Pela estória de vida dela narrada, ela sempre foi assim, sem empatia pelos que a circundam, embora eu não goste nada dela, é do seu mico leão dourado que eu menos gosto, ele é cruel e sádico, gosta de maltratar os daemons dos outros. O estranho sobre ela ainda é que ela faz as coisas não por crença ou convicção, mas pelo poder, pelo puro poder, ela não demonstra nada além dessa sede desenfreada por ser dominadora.

Os gípcios são como ciganos, eles são fundamentais na fuga de Lyra e são eles quem contam a ela sua própria estória, ou diria a verdade sobre sua vida e futura missão. São um povo cheio de tradições, e percorrem canais pela Inglaterra com seu barcos. John Faa e Farder Coram são os dois principais, e fazem o papel dos mais sábios da trama.

Completando o clima diferente temos um urso de armadura, Iorek Byrnison, com personalidade de sobra e força sem igual, diferente dos ursos comuns tem polegares e facilidade para metalurgia. Além de toda uma cultura no seu lar, com uma estrutura monárquica inclusive.


Fogo & Sangue - Fogo & Sangue #01 - George R. R. Martin

Não poderia ter sido em melhor momento a leitura de Fogo & Sangue, do autor George R. R. Martin, lançado pela Suma de Letras, já que a última temporada de Game of Thrones está no ar, e acompanhar esse mundo em dois momentos distintos é muito interessante e complementar.
Trezentos anos antes da guerra dos tronos acontecer a família Targaryen conquistou os sete reinos através de Aegon, O Conquistador. Ele forjou o trono de ferro, e liderou gerações desta casa que lutou para manter no poder os únicos senhores capazes de serem cavaleiros de dragões. Através de diversos relatos de reis, e a trajetória dos dragões e seus humanos é narrada, algumas verdades são contadas, mentiras forjadas e dúvidas colocadas, mas verdade seja dita até o fim os Targaryen tem um único objetivo: estar no trono, alguns pela paz outros pelo sangue.
Este é meu primeiro contato com a narrativa de Martin, embora possua os livros das crônicas de gelo e fogo, ainda não havia as lido, apenas acompanho o seriado, que por sinal muito me agrada! Embora se passe trezentos anos do que é narrado nos livros de guerra dos tronos este livro é repleto de informações que vão de encontro com o que se passa em guerra dos tronos, isso porque todos os eventos narrados culminam no futuro. A narrativa é feita em terceira pessoa de forma universal, ou seja, acompanhamos ao mesmo tempo diversos personagens acessando seus pensamentos e emoções, e compartilhando diversos pontos de vista. Para construir seu relato este narrador utiliza como fonte relatos e livros de meistres e outros, chegando a apresentar até mais de uma possibilidade para o evento narrado.
Caso você não seja familiarizado com os territórios de Westeros e além, ou conheça as famílias que as habitam não é através deste volume que isso acontecerá, ele complementa o que já foi dito, mas não introduz. O foco é nos sucessivos governos e fatos familiares do clã Targaryen. Ou seja, ele destrincha em minúcias como era determinado rei, com quem casou, quem foram os filhos, os aliados, os inimigos, e etc.

Através destes detalhe é possível compreender a evolução comportamental destes senhores de dragões que sempre foram donos de muita personalidade, e aos poucos foram desenvolvendo características que chegaram até Daenerys no momento 'atual'. Características como o costume de casar seus integrantes entre parentes para manter a pureza de sangue explicam o comportamento estranho do irmão de Daenerys, por exemplo. A relação que eles estabelecem com os dragões também é amplamente explorada.

Embora de forma mais superficial comparado ao Targaryes, outras famílias também podem ser acompanhadas ao longo do tempo, os Stark sempre foram um povo isolado, desconfiado, mas sempre mostrando bom discernimento, enquanto os Lannisters sempre estiveram em busca de quem oferecesse mais dinheiro e poder. Dorne nunca se dobra, e os Greyjoys são pessoas de quem pode se esperar tudo.

Desde Aegon, o Conquistador até o fim do reinado de Aegon III, cada personagem é explorado em sua importância para os altos e baixos desta família, que ora está unida, ora está em guerra. A escrita de Martin não tem como objetivo ser um romance, os diálogos são breves, e o livro mais parece um livro de história. Isso pode para algumas pessoas ser cansativo, mas de modo algum o autor tem problemas narrativos. Mesmo assim não foi uma leitura rápida, já que o livro conta com quase seiscentas páginas e com uma diagramação bem apertada.

Cada capítulo contém um foco, e é repleto de ilustrações em preto e branco. Estas ilustrações são lindas e trazem riqueza a estória, já que transmite detalhes dos personagens e seus dragões. Com o toque já conhecido por todos que acompanham Martin, neste volume a morte é companheira, e muito sangue é derramado. Além de explicar a gênese de toda a conquista dos Targaryens que teve como objetivo reunir reinos que só estavam em guerra em um único reino de paz. O primeiro rei era fascinante e alguns de seus herdeiros também, enquanto outros eram melhor nunca terem saído do ovo!


A Máquina do Tempo - H.G.Wells

Eu ainda não sei que mágica que H.G.Wells faz, mas todos os seus livros me despertam um encanto, mesmo que não sejam tão bons do ponto de vista técnico, ele consegue através de sua escrita me levar a cantos variados, como foi no caso da leitura de seu primeiro livro publicado, A Máquina do Tempo, publicado pela Suma de Letras.

Um cientista faz sua primeira viagem no tempo, e narra a seus amigos como foi ir parar no ano de 802701. A Terra é habitada por humanos diferentes, menores e dóceis, mas ao mesmo tempo sem tecnologia ou conhecimento. Eles entretanto não estão sozinhos, nos subterrâneos outra evolução dos humanos se emprenha no escuro, e desperta o medo não só destes humanos da superfície como do viajante do tempo.

Para compreender o livro em questão é preciso ter a mente muito aberta, tendo como pano de fundo alguns dados históricos. Este é o primeiro livro publicado pelo autor, mesmo assim ele já demonstra o que mais tarde veremos em Guerra dos Mundos, uma capacidade ímpar de narrar estórias variadas e nos despertar curiosidade para seus desfechos. Segundo, ele foi pioneiro dentro da ficção científica, tanto como um dos pais do gênero, como também a abrir para a temática de viagem no tempo através de um aparato físico, tema este que passou a ser muito popular na ficção científica.

A estória é narrada por um narrador em primeira pessoa que se encontra na casa do cientista, ele primeiro nos conta de uma reunião onde o cientista apresenta sua ideia da máquina, e depois mais tarde também quando está na casa quando ele volta de sua viagem no tempo. Quando o viajante narra sua experiência, a narrativa se mantêm em primeira pessoa, mas através agora do cientista.

O livro não se propõe a contar uma estória tradicional onde se tem um começo, meio e fim, com um conflito. Ele visa antes de mais nada uma reflexão e crítica a sociedade do momento do autor. Isso fica muito claro quando ele faz críticas ao comunismo, e ao modo operantis da sociedade dos elois (os seres humanos que vivem na superfície), esta civilização é igualitária, todos se vestem igual, são iguais. Naquela época o comunismo já era uma ameaça a Inglaterra, e assim um vilão ao estilo de vida tradicional inglês.

O futuro poderia ser considerado uma distopia já que não deu certo, embora os humanos ainda existam tudo que conquistou se perdeu. Não existe uma língua, tecnologia, e mesmo os animais deixaram de existir. A partir destas observações o cientista começa a especular o que o ser humano fez que culminou neste resultado. Ele chega a pensar sobre os ricos que se mantiveram na superfície enquanto os pobres se mantiveram escondidos trabalhando para manter a vida destes burgueses ingleses, e esse comportamento acabou gerando estas duas raças.

Ao mesmo tempo ele também começa a desenvolver a semente do que mais tarde também seria largamente explorada, a quarta dimensão, que é a dimensão do tempo. Trabalhando algumas possibilidades dentro desta teoria. Inclusive chego a me questionar se de fato nosso protagonista viajou na linha do tempo, já que diversas existências coexistem ao mesmo tempo, ou seja, diversas possibilidades de existência, e talvez a viagem tenha sido para outro modo de evolução da raça humana. Ou ainda quem sabe ele tenha ido para outro planeta?



A Sombra do Vento - Cemitério dos Livros Esquecidos #01- Carlos Ruiz Zafón

Conheci Zafón através do livro Marina, e demorei muitos anos para finalmente ler A Sombra do Vento, primeiro volume da série Cemitério dos Livros Esquecidos, publicado pela Suma de Letras. Ele estava na estante me encarando todo esse tempo, e chegou o momento de ler o livro que fez o autor ser conhecido e reverenciado!

Após uma madrugada inusitada com uma visita inesperada Daniel Sempere tem em suas mãos um livro raro, A Sombra do Vento. Algumas horas depois o livro está lido, e o garoto tem apenas um objetivo: saber quem é o autor e onde encontrar seus demais livros. Uma busca que começa inocente, e atravessa o tempo se transforma em uma perigosa estória que coloca em risco que é mais importante para ele, ao mesmo tempo em que verdades guardadas a sete chaves vem a tona.

Zafón tem uma narrativa em primeira pessoa muito peculiar e única dele, ao mesmo tempo que soa simples e direta, evoca em suas ações críticas, especialmente políticas dentro da Espanha. Suas peculiaridades trazem uma atmosfera que beira sempre a fantasia, sem de fato se adentrar nela, com um toque gótico sutil. Você se imagina nas ruas de Barcelona na chuva perdido junto a Daniel tentando compreender quem é Julian Carax, esse autor que escreveu livros que foram queimados e não deixou rastro de sua existência, e mais do que no lugar de Daniel o autor desperta a curiosidade de saber o que aconteceu com Carax e seus livros.

A estória é desenvolvida em uma linha do tempo linear do ponto de vista de Daniel, mas não linear quando os diversos personagens contam suas vivências com Julian. É através desses relatos e descobertas que Sempere costura a estória de vida de Julian e termina na descoberta de sua verdadeira vida, e devo dizer é triste e é surpreendente!

Embora agradável o livro não permite um ritmo muito rápido de leitura, e isso porque o autor as vezes exagera um pouco em certos pontos da estória, e algumas páginas ao meu ver poderiam ter sido tiradas, já que não acrescentam muito a trama. Este ritmo ora lento, ora fluído pode desestimular a leitura para algumas pessoas acostumadas a narrativas mais acessíveis.

Daniel é um jovem determinado a descobrir a estória de Carax, mesmo que isso coloque em risco sua vida ou a de seu pai, com isso ele pode ter ações exageradas e destemidas. No fundo tudo é inocência, ele não consegue perceber a maldade das pessoas, e sempre tende a acreditar nelas. Ao mesmo tempo tem uma grande identificação com o autor.

O pai de Daniel é muito dedicado ao filho, e respeita o espaço do mesmo sem sufocá-lo, é uma relação bonita de acompanhar. Fermín Romero de Torres é um homem que Sempere tira das ruas para trabalhar com ele e o pai em sua livraria, dono de uma personalidade marcante, este homem se torna melhor amigo de Daniel, e embora carregue uma estória de vida muito triste é fonte de humor e leveza a narrativa.

Julian Carax é um jovem perturbado que é levado a caminhos estranhos na vida, sem se dar conta de quem está por de trás deles. Seus amigos de escola, Míquel Moliner companheiro até o fim de seus dias, e Jorge Aldaya não aparecem por muito tempo na narrativa, mas têm papéis fundamentais no andamento da trama.

Os demais personagens que surgem são muito variados e interessantes, Clara uma jovem cega e seu tio livreiro e boêmio, Fumero um policial sem qualquer ética e moral, Nuria uma mulher de caráter duvidoso, Beatriz a jovem que desperta o amor em Daniel, além dos vizinhos como o catedrático dramático e o relojoeiro que gosta de se vestir de mulher. Todos bem caracterizados e bem encaixados nessa estória repleta de detalhes e enigmas.


A Assombração da Casa da Colina - Shirley Jackson

Nem sempre ao terminar um livro sou capaz de dizer se este é uma obra boa, as vezes saiu com a sensação de que preciso 'ruminar' um pouco suas páginas para chegar a alguma conclusão. Entretanto só de um livro ter este efeito já é algo digno de leitura, e A Assombração da Casa da Colina, da autora Shirley Jackson, publicado pela Suma de Letras é um caso assim.
Dr.Montague é um pesquisador de fenômenos paranormais, e para sua nova pesquisa ele convidou diversas pessoas que tenham histórico sobrenatural para passarem alguns dias com o mesmo em uma mansão assombrada. Apenas duas pessoas respondem ao seu pedido, e a família dona da mansão exige a presença de um integrante de sua família. Assim se forma um grupo de quatro pessoas que irão investigar o que se esconde nas paredes desta velha mansão, a Casa da Colina.
Jackson nos convida através de sua sinopse a um livro de fantasmas e suspense, mas sua narrativa realizada em terceira pessoa com especial foco em Eleonor e na casa em si não acaba cumprindo sua promessa inicial, já que senti que o livro se foca mais na loucura e na culpa do que em fantasmas propriamente ditos.
Theodora é um mulher de personalidade muito forte que fala o que vem a sua mente sem se importar em machucar quem a cerca. Tem necessidade de se mostrar independente e forte, mesmo quando está evidentemente com medo prefere sorrir, e fingir controle do que assumir seu estado. Tem uma relação de amor e ódio com Eleonor, na verdade ela morre de ciúmes da outra jovem, e fica entre ser amiga da mesma, e a diminuir.
Eleonor é uma jovem perturbada, acompanhamos a personagem desde o instante em que sai de casa até chegar a casa da colina, e o suspense envolvendo seu passado é constante. Desde o inicio sabemos que ela perdeu a mãe, mas as circunstâncias são desconhecidas, mas uma culpa é recorrente em seu discurso. Ela tem pensamentos recorrentes com medo de soar boba ou fraca para as pessoas da casa, e não sabe como agir em sociedade. Ela vai aos poucos se descobrindo sem a sombra da mãe, infelizmente para ela, ela se descobre inadequada a sociedade da época.
Luke é o futuro herdeiro da casa, e não parece acreditar que a mesma tenha algum tipo de espírito. É espirituoso e não desperta interesse das jovens como poderia ser esperado. A verdade é que seu personagem é um pouco perdido e pouco explorado, pois quase nada sabemos sobre ele.
Montague é quem reúne todos, e acredita ter controle de tudo que acontece. Quando as poucas coisas estranhas acontecem ele parece estar diante de qualquer evento ordinário, e isso soou um pouco sem graça, já que ele estava lá para isso. O grupo assim como ele parece todo tempo ocioso, sem ter o que fazer ou dizer. Por isso o caminho para loucura acaba aberto rapidamente. Na reta final do livro a esposa de Montague e um amigo surgem na casa, mas ambos são riquinhos e muito chatos, e sabe-se lá tudo acontece diferente na experiência deles na casa.
Os diálogos dos personagens parecem começar como qualquer outra conversa, e de repente a lógica se perde, e os personagens caem ou na brincadeira ou na loucura. As cenas também não seguem o tempo comum, de repente a ação muda e você tem que se relocar. O desfecho é inesperado, e não posso afirmar com toda certeza se minha conclusão foi certa. Algumas coisas não ficam ditas, tenho cá minhas teorias.


A Caixa-Preta - Harry Bosch #18 - Michael Connelly

Gosto bastante dos livros de Michael Connelly, que sempre conseguem me prender com uma história instigante e uma narrativa bem gostosa. Por esse motivo, sempre que que surge a oportunidade começo a leitura de um dos seus títulos (que graças a Deus são muitos) e mergulho num novo suspense para solucionar os acontecimentos. Lembrando que essa série não precisa ser lida em sua ordem de lançamento, já que os livros são independentes, mas todos sempre trazem alguma coisa a mais, como o amadurecimento de nosso protagonista e algumas coisas da sua vida pessoal.
Nesse volume vemos que nosso famoso detetive Harry Bosch vai investigar o caso da fotojornalista dinamarquesa Anneke Jespersen, que foi assassinada a queima roupa em um beco durante os protestos que estavam assolando as ruas de Los Angeles em 1992. O caso dela nunca foi solucionado e com isso acabou sendo arquivado. Agora, vinte anos depois, Bosch tem a chance de investigar o que aconteceu no passado e tentar entender o motivo de ela ter sido morta, sendo que a única pista que ele tem para desvendar todo o crime é a bala que foi retirada do corpo da jornalista na época, uma cápsula de uma 9mm, e com isso ele começa a fazer uma pesquisa sobre essa arma e descobre que, ao longo dos anos, ela já foi utilizada em outros crimes.
Muito determinado, Bosch não se dá por vencido e enfrenta várias barreiras para conseguir solucionar todos os mistérios, mesmo com diversos contratempos como falta de evidências, informações perdidas e toda a questão de ser um crime com vinte anos. E com isso temos uma história eletrizante, cheia de diálogos inteligentes, além de personagens cativantes e um pano de fundo maravilhoso.
Acompanhamos então nosso protagonista nessa caminhada em busca da verdade, enquanto conhecemos cada vez mais um pouquinho da sua vida pessoal e de como ele se sente ao não ser capaz de conseguir ser tão presente na criação de sua filha, que já é uma adolescente de quinze anos, muito inteligente e que sonha em seguir os passos do pai.
O livro é narrado em terceira pessoa, o que gosto bastante, já que assim conseguimos ter uma visão mais ampla de tudo o que está acontecendo na trama, nos dando pistas de uma maneira geral para que a gente também consiga desvendar todos os mistérios junto com Bosch.
Essa obra é daquele tipo que pensamos que encontramos quem é o culpado, até que uma nova pista muda o sentido de tudo e faz com que a gente tenha que rever os nossos palpites e mudar o nosso foco para outro personagem. Gosto bastante quando uma leitura me proporciona esse tipo de dúvida, pois fica claro que é uma excelente história, que não é óbvia ou clichê.
Com uma narrativa bem gostosa e envolvente, este exemplar vai conseguir te conquistar do início ao fim com personagens cativantes, cada um com o seu jeito de ser, um enredo de tirar o fôlego com uma investigação bem detalhada, cheia de ação, mistérios e pistas, tudo de uma forma bem explicada e bem convincente.


Os Deuses da Culpa - Mickey Haller #05 – Michael Connelly


Sempre gostei bastante dos livros de Connelly, pois suas narrativas são instigantes, envolventes e nos prendem em todos os momentos com personagens incríveis. Também curto muito o Mickey Haller, que no caso é o protagonista dessa história, que já teve cinco volumes publicados aqui no Brasil (contando com este. O sexto ainda não chegou por aqui), e irmão do famoso detetive Harry Bosh (outro dos protagonistas criados por Michael). Sendo assim, sempre que é possível, gosto de me aventurar em seus títulos.
Nesse exemplar, acompanhamos mais uma vez a história de nosso advogado de defesa Mickey Haller, que, por ter essa profissão e ser bom no que faz, acabou causando vários problemas para si mesmo, já que acabou inocentando um homem que foi o responsável por matar 2 pessoas. Isso fez com que sua filha parasse de falar com ele, uma vez que ela conhecia as vítimas e achava que o pai defendia quem deveria ficar na cadeia, e isso também acabou com suas chances de se eleger para o Gabinete da Promotoria do Condado de Los Angeles.
Agora, ele foi chamado para um caso de assassinato, no qual a vítima é uma ex-cliente sua, uma mulher que era garota de programa e que ele ajudou a tirar das ruas. Quando descobriu que era essa sua ex-cliente, nosso protagonista chegou a ficar surpreso, já que ele achava que a moça não tinha voltado para essa vida, uma vez que até mesmo recebeu cartões postais dela sobre esse período em que estava afastada.
Gloria foi encontrada morta em seu apartamento, e Andre La Cosse, um cafetão digital, ou seja, um homem responsável por administrar sites e redes sociais de acompanhantes de luxo que, com isso ele ganha uma comissão por esses programas, foi considerado o assassino.
Nosso protagonista vai atrás de tudo para tentar descobrir o que realmente aconteceu, e então descobre que Gloria sabia de muitas coisas e por isso acabou sendo assassinada. Alguns anos atrás, ela foi testemunha em um caso sobre um cartel de drogas e ajudou a colocar um homem bem perigoso atrás das grades. Foi nessa época que Haller falou para ela ir para outro estado e mudar de vida, então agora ele vai investigar o que realmente aconteceu, o motivo por que ela quis continuar nesse mundo e o porquê de ter mentido para ele durante todos esses anos. Porém, quanto mais investiga, mais perigosas as coisas ficam.
Uma obra cheia de reviravoltas, na qual você não consegue descobrir quem é inocente até chegar ao fim. Uma história eletrizante, que envolve assassinato, corrupção, prostituição e drogas, que faz você ficar tentando desvendar quem é o culpado e que te instiga em todos os momentos a criar teorias. Gosto bastante desse tipo de enredo, e, para quem curte um bom romance policial, não pode deixar de ler essa trama que está super envolvente e bem escrita.


A Guerra dos Mundos - H.G. Wells

Eu não acredito em coincidências, os fatos se conectam porque tudo faz parte de uma teia maior que se liga muito antes de termos consciência. Eu digo isto porque A Guerra dos Mundos, do britânico H.G. Wells, publicado pela Suma de Letras estava na minha lista de leituras desde que sua edição capa dura saiu, mas eu não fazia ideia de quando ia lê-lo menos ainda que se passava na Inglaterra. Eis que acabei de chegar de Londres e minha leitura ao pisar aqui foi justamente esta!

Em uma noite de observações noturnas do planeta marte um inglês e seu amigo observam estranhas explosões do planeta, tudo parece interessante, mas o que eles vêem naquela noite só começa fazer sentido quando o que parece ser um grande meteorito cai. Entretanto quando ele começa a se mover eles percebem que trata-se de um objeto tripulado, e que as criaturas que estão dentro deste cilindro não parecem amistosas com seu raios que a tudo destroem. Outros cilindros caem, e começam a se mover pelas cidades, e parece que nada que os humanos tem para se defender é capaz de pará-los, será o fim da humanidade?

O livro foi publicado pela primeira vez em 1898, e por ter mais de cem anos eu acreditava que encontraria uma narrativa mais densa ou cansativa, nunca estive mais errada, porque Wells narra em primeira pessoa  (a partir deste individuo inglês que acompanha tudo de perto) de forma muito atual, se eu não soubesse a data em que foi escrito não diria que é tão velho tal a capacidade do autor de soar atual. E mais do isso ele soa realista, narrando todos os acontecimentos em detalhes, sem que com isso perca ritmo ou interesse. Mesmo em partes que ele quer soar mais técnico ao explicar as máquinas dos extraterrestres ele consegue captar a atenção do leitor, se referindo a quem lê vez ou outra. Até a fisiologia dos mesmos ele se propõe a explorar!

Outro recurso interessante é que quando ele quer falar sobre acontecimentos que fugiram a sua experiência ele evoca relatos de outras pessoas, como é o caso de seu irmão que no momento dos ataques se encontrava em Londres. Logo ele fala em primeira pessoa falando tudo que posteriormente seu irmão lhe contou. Este recurso permite que uma visão ampla do que aconteceu seja explorada.

Não sabemos o nome de nosso protagonista, mas não por isso não temos uma profunda empatia com o personagem que fala de si ao mesmo tempo em que descortina a invasão. Determinado a sobreviver ao mesmo tempo em que seu espírito investigativo e curioso o impele a seguir, o inglês passa por maus bocados fugindo destas máquinas impiedosas. Sua capacidade de ser racional o salva da loucura por inúmeras vezes, ao mesmo tempo em que desperta pensamentos filosóficos, já que a filosofia é sua matéria de escrita.

Os personagens que ele esbarra durante sua fuga exploram bem a natureza humana em momentos de tensão e extremo perigo, mostrando como nestes momentos agimos como animais irracionais, sem propósito. Um diálogo que ele tem na reta final do livro com um militar explora esta questão do ser humano que segue o rebanho sem maiores propósitos de vida. Esta conversa é excelente, pois nos alerta quanto a quem sobreviverá no final, se os que seguem o curso, ou os fortes que querem mais da vida além de seguir o protocolo.

De forma branda, mas explicita Wells também critica a religião, já que um de seus companheiros de viagem é um padre. Este padre se mostra tão distante da fé que propaga, e dos princípios que deveria ter que coloca em cheque as ideias reproduzidas pela igreja. Claro que estes questionamentos talvez não tenham grande impacto hoje, mas não podemos esquecer que o livro tem mais de cem anos!

Como relatei no inicio acabei de voltar de Londres, e esta leitura acabou sendo extremamente especial porque Wells narra com detalhes muitos lugares de Londres, desde bairros, a ruas, parques e museus, todos locais que eu estive. E é incrível imaginar que todos eles são tão velhos, e ao mesmo tempo atuais. É uma sensação de viagem no tempo que só esta experiência pode proporcionar!


Os Olhos do Dragão - Stephen King

Acho que um excelente modo de saber quando um indivíduo é um bom escritor é ler livros dele muito diversos, não só sob o ponto de vista do tema, mas até da narrativa, e achar que todos eles são bons. Encontrar alguém com uma diversidade tão grande é raro, pelo menos eu ainda não conheço muitos, mas Stephen King com certeza é um destes autores. E com Os Olhos do Dragão, publicado pela Suma de Letras, ele mostrou sua faceta de contos de fadas.

Era uma vez um reino chamado Delain, onde o rei Roland vivia com seus dois filhos, Thomas e Peter. Roland não era um rei que podia ser chamado de bom, pois sua preguiça e falta de inteligência não o permitiam, mas nos limites de sua capacidade ele se esforçava para deixar boas memórias em seu povo. Como conselheiro do reino Flagg, um feiticeiro, conseguia influenciar o rei. Almejando trazer o caos para Delain ele mexe suas peças para eliminar Roland e tirar o futuro rei Peter de cena. Mas Flagg, muito egocêntrico, acaba por não levar a sério seus inimigos, e não perceber que Peter tem planos para se vingar!

King nos brinda com uma narrativa feita de forma muito particular, é um contador de estórias quem nos dá detalhes de toda a trama, e que ao mesmo tempo em que fala desta estória em uma época medieval também trás paralelos (poucas vezes) com o nosso mundo e tempo. Outro ponto atípico é que ele dá spoilers do que vai acontecer, e volta no momento do acontecimento para explicar de forma detalhada como se deu o evento em questão. Logo as surpresas durante o livro são poucas, a graça está em como se deu estes eventos, e a construção dos personagens.

O livro flerta muito com o estilo dos contos de fadas, e inclusive me lembrou trechos de outros livros/contos. King buscou a repetição, a temática e conformidade dos personagens destes contos. Nestes tipos de contos, por exemplo, o protagonista se vê diante do maior sofrimento de sua vida, ele sofre, mas aceita o fardo que precisar para se libertar, ou seja, não passa seu tempo se lamentando pela sua falta de sorte, ou sobre algo sobrenatural que não deveria acontecer, ele arregaça suas mangas e parte para a ação. Esta ação se deu de forma muito prática e vezes poética.

Peter, o herdeiro do trono, é um jovem bondoso que é o preferido do pai. Embora seja nobre seu melhor amigo é um plebeu, e desde muito jovem luta pelo certo, mesmo que para isso esteja contra o que o Rei deseja. Por sua lealdade ao certo é que desperta o ódio de Flagg, e por causa do feiticeiro que acaba preso. É muito inteligente, e consegue usar a seu favor sua linhagem.

Thomas, o irmão mais novo sempre viveu nas sombras do irmão. E quando se vê como rei acredita que vai ter finalmente seu lugar ao sol, mas desejar não é o mesmo que ter, e quem nasceu para viver nas sombras está fadado a continuar nelas. Atormentando pelo que viu antes da prisão do irmão ele passa de um pré-adolescente para uma sombra de rei. Sem força de vontade ou amor próprio é incapaz de lutar pelo irmão. É invejoso e carente.


O Mirante - Harry Bosch #13 - Michael Connelly

Harry Bosch, um experiente detetive que recentemente passou a trabalhar na Delegacia Especial de Homicídios em Los Angeles, não estava tendo nenhum caso para resolver. Até que surge um cadáver no Mirante Mulholland Drive, e ele deverá ir em busca dos culpados por esse assassinato. Com sua perspicácia e inteligência, começa a juntar tudo o que vê com bastante determinação. Só que a investigação primeiro fica girando em torno de uma ameaça nacional, que tem relação com o caso. E então Harry tem que trabalhar em parceria com o FBI, que lhe dará suporte neste crime, porém estando mais focado no roubo de grande quantidade de Césio 137.
Não sei o que aconteceu anteriormente para Harry ser transferido para essa unidade, pois não li o livro anterior desta série, “Echo Park” (foi resenhado por outra pessoa aqui no blog. Se quiser conferir a resenha, basta clicar no título), e muitas vezes me faz ficar com uma pulga atrás da orelha, me perguntando o que houve com ele. Sendo bom naquilo que faz e se dedicando, é incompreensível, só que, mesmo assim, sendo esse seu primeiro caso neste novo departamento, ele consegue resolver com maestria. No desenrolar da trama, vão sendo deixadas pegadas que só um detetive como Bosch consegue desvendar, e nós, como leitores aguçamos nossa curiosidade a cada passo.
Sob meu ponto de vista, ele é perfeito nesta profissão, sensato e muito inteligente, vai encaixando os fatos e por fim consegue resolver o que antes ninguém conseguiu. Porém, ele acaba tendo dificuldades de se relacionar com a equipe de investigação designada pelo FBI e também pelo Departamento de Segurança Interna, que acreditam que um simples detetive local não tem condições de se intrometer num caso tão grande.
Isso porque a vítima era um físico, que tinha acesso a material radioativo que ajudava na cura de diversas doenças, mas também era muito perigoso em larga escala e no caso foi roubado do laboratório. Até então, se sabia que o físico havia pego e não se sabia para quem entregou. E, nas mãos erradas, poderia causar uma grande catástrofe.
A história foi muito bem desenvolvida, as pistas iam surgindo aos pouquinhos, mas de uma forma não muito reveladora. Então a gente tinha que prestar atenção para não perder nenhuma informação. Até porque esta foi uma investigação em ritmo acelerado, que se passa em cerca de 12 horas. O caso foi bem construído e gostei do rumo da investigação e do desfecho da mesma.
Como já mencionei em resenhas anteriores de obras autor, as ruas e trajetórias por onde o detetive Bosch passa são bem descritas o tempo todo, fazendo com que a gente consiga se localizar facilmente na cidade, principalmente para aqueles que já visitaram o local. E, mesmo para os que não estiveram lá, como eu, a gente consegue ter uma noção do espaço, já que ele tem uma habilidade de escrita bem visual.


Echo Park - Harry Bosch #12 - Michael Connelly

Sendo eu uma fã de carteirinha de Michael Connelly, não poderia deixar de querer ler todos os seus títulos publicados aqui no Brasil. Por isso, sempre que é possível, intercalo algum de seus exemplares entre a minha lista de leituras, para sempre ter um gostinho dessa narrativa tão viciante. Mesmo este sendo o décimo segundo volume desta série, não precisa ser lido na ordem (inclusive nem todos foram traduzidos para o português), já que são histórias separadas de um mesmo protagonista.
Neste volume vemos que o detetive Bosch fica surpreso ao saber que um assassino em série vai confessar ter matado Marie Gesto, uma mulher que sumiu sem deixar pistas. A última vez que ela foi vista foi em um supermercado, mas seu carro depois foi encontrado abandonado e nada dela, a não ser as roupas que usava no dia. Esse é um crime que ele tenta revelar há treze anos, mas ainda não conseguiu desvendá-lo. Agora, um esquartejador de duas mulheres é preso e, para pegar prisão perpétua ao invés de pena de morte, confessa o assassinato de nove outras vítimas, inclusive o caso da Marie Gesto.
Nosso destemido detetive entra, então, em uma nova investigação, com novas pistas, para, mais uma vez, tentar desvendar esse caso que sempre foi seu fantasma que o assombra. Querendo desvendar todos os mistérios, até mesmo sobre o acordo entre o assassino e a promotoria, nosso adorado Harry Bosch se vê envolvido em uma trama cheia de reviravoltas e acontecimentos na busca pela verdade.
Esse foi um dos meus livros preferidos dessa série, já que achei a história super envolvente e por ser um caso que sempre mexeu com o nosso protagonista já que durou treze anos. À medida que vamos lendo, já imaginamos o final, sendo assim, ele não é tão surpreendente, mas por ter sido bem explicado e amarrado, entendo o motivo dele e gostei bastante.
Essa narrativa como sempre é gostosa, ágil e bastante fluida. Em todos os momentos temos novas pistas, que vão nos ajudando a entender mais sobre nosso querido detetive e sobre sua capacidade de dedução. Os personagens são muito bem construídos, cada um com o seu jeito de ser, o que deixa a história ainda mais gostosa. Eu realmente gosto de acompanhar o protagonista, que mesmo estando acima de idade da maioria dos policiais, mostra ser destemido, bastante inteligente, e disposto a quebrar algumas regras em nome da verdade. Outra coisa que acho muito interessante é o fato de ele utilizar mais a sua inteligência do que os recursos tecnológicos que temos hoje em dia, e é bastante utilizado.


Nove Dragões - Harry Bosch #15 - Michael Connelly

A história de “Nove Dragões” começa com o enfoque no assassinato do Sr. Li, chinês dono de uma loja de bebidas num gueto em Los Angeles. Nesta empolgante aventura, Bosch se vê às voltas com uma organização de nome Tríade, que tem longa data na exploração de seus contribuintes chineses. Quando começa a se inteirar com os detalhes desta investigação, recebe uma ligação com mensagem de vídeo de Hong Kong, tendo como pano de fundo sua filha, Maddie, que fora sequestrada, e que mora lá juntamente com sua mãe, Eleonora.
Sua mãe, então, corre para pedir ajuda à polícia local, só que nada consegue. Portanto, Bosch entra em ação para salvar a filha, pegando um avião para se arriscar no território das tríades chinesas, tendo somente um final de semana para resgatá-la. Agindo fora de seu ambiente, Bosch precisará mover mundos e fundos para conseguir encontrar pistas que o levem a desvendar os mistérios, contando apenas com a ajuda de sua ex-esposa, com quem não tinha uma relação tão boa assim, e seu novo namorado, e ainda enfrentará muitas reviravoltas, inclusive momentos bastante trágicos e emocionantes.
Esse detetive é realmente demais!! Michael Connelly sabe nos transportar para este mundo de mistério e ação, que não dá para parar a leitura. Ficava querendo respostas o tempo todo e ele conseguiu dá-las aos leitores conforme a história ia fluindo. Acontecem tantas coisas nesta obra, que a trama nunca fica parada. Então os acontecimentos foram bem rápidos e tudo foi muito eletrizante e dinâmico, fazendo com que eu engolisse as páginas, “desesperada” por mais a cada virada de folha, desejando saber o que viria a seguir e torcendo para que tudo desse certo e o final fosse o melhor possível.
Porém, como esta obra é bem realista, sabemos o que o melhor possível está bem longe do que realmente gostaríamos que fosse, então há mortes de pessoas importantes para Maddie e até para Bosch.
Maddie é bem nova neste volume, ainda está na adolescência, e sentia que não tinha a atenção dos pais que gostaria de ter, então começou a se envolver e andar com pessoas que não sabia que seriam de má índole, mas no final se revelaram piores do que o esperado. Não posso comentar muito sobre o que aconteceu com relação a essas pessoas, mas foram de grande influência para a parte ruim da trama. Para piorar, por conta de uma atitude dela, uma consequência terrível acabou acontecendo no caminho.
Outro ponto que também acho incrível é que todo o trajeto que ele faz, ou seja, o deslocamento do detetive Bosch é narrado rua por rua ou avenida, ou por onde ele passa. Então podemos adentrar nos cenários como se pudéssemos fazer parte daquilo tudo. Para quem mora lá, deve ser mais emocionante ainda, porque você vai visualizando tudo detalhadamente.


Sobre a Escrita - A Arte em Memórias - Stephen King


Gostar de um livro de um autor é normal, gostar do segundo é mais raro, agora gostar do terceiro significa que ele entrou para sua lista de autores favoritos. No meu caso não são muitos que entram nesta lista, e até raros os que ficam de forma permanente. Stephen King é o mais novo morador da lista, e ele terminou de me conquistar com seu livro de não-ficção, Sobre a Escrita - A Arte em Memórias, publicado pela Suma de Letras.

Esta obra nos brinda com uma visão prática e realista da profissão de escritor, não com uma lista do que fazer, mas sim com um relato de métodos e formas que deram certo para King e que devem ficar em mente de todos que aspiram a ser escritor.

A primeira coisa que pensamos ao ler o mote do livro é que se trata de um livro técnico repleto de dados para melhorar a escrita correto? Se pensou assim então saiba que não é isso que o livro trabalha. A primeira coisa que temos em suas quase primeiras cem páginas é um relato bem humorado (humor negro de boa qualidade!) sobre a vida pessoa de King, relato este em primeira pessoa. E talvez você possa se perguntar em como isso se encaixa na proposta do livro. É simples o autor quis colocar de forma prática o quanto que tudo que aconteceu em sua vida reflete em seus escritos, assim como se deu suas enumeras tentativas de entrar no mercado literário.

Quando detalhadamente acompanhamos momentos marcantes da vida de King, é possível visualizar o quanto eles estão como pano de fundo em seu modo de escrever. E isso é primordial para um bom trabalho, dar-se conta de que você não é uma página em branco que quer escrever uma estória, mas sim um livro em aberto que vai colocar de forma sublimada sua realidade, seja ela baseada em fatos reais, seja uma fantasia por exemplo.

Cada um ao se dar conta de si mesmo vai traduzir seus sentimentos, experiências e conhecimentos de uma maneira diferente. Reside ai um conteúdo que não pode ser aprendido, ou adquirido, é apenas a vida da forma que se sucede. Escrever é auto-conhecimento e combustível para continuar vivendo, e para King ainda  escrever é um ato mágico e vital como água.

Para que as ideias possam ganhar corpo ele explora de forma muito interessante informações como gramática, descrição, enredo, estória, diálogos e etc, tudo com exemplos de suas obras. E esse é um dos encantos do livro, conhecer os bastidores de suas obras, como ele concebeu as ideias, as colocou no papel e as refinou. Para alguns pode perder o encanto, para mim foi um reforço de seu valor.


Carrie, A Estranha - Stephen King

Inspirada pelo projeto All About King do canal All About That Book, e por diversos outros canais e blogs que entraram no clima do Halloween eu resolvi ler Stephen King, só tenho dois livros dele, um já li um, assim só me restou ler ninguém menos do que Carrie - A Estranha, primeiro livro publicado do autor em 1974, e publicado aqui no Brasil pela Suma das Letras.

Carietta White é uma jovem adolescente, filha de uma mãe fanática religiosa que enxerga o mundo através de uma visão própria da bíblia. Com este ângulo peculiar, a garota cresceu com modos estranhos, e é tida por todos que a cercam como, a estranha, e com isso perseguida pelos colegas de escola, e até professores. Entretanto ela não é alguém que teve apenas uma criação restrita, mas alguém que guarda um segredo: quando ela está por perto os objetos a sua volta ganham vida.

O baile de formatura está próximo, e tudo pode mudar na vida de Carrie, e de todos que estão próximos, depois dele eles nunca mais serão os mesmo, já que esta noite marcará suas vidas para sempre!

Não vi o primeiro filme feito a partir do livro, vi apenas o segundo. Então acreditava que não teria grandes surpresas na leitura do livro, mais cai do cavalo de cara no chão. Já tinha percebido o grande talento de King na leitura de Mr. Mercedes, mas Carrie permitiu a compreensão de onde tudo começou.

A narrativa é construída de forma epistolar, ou seja, utilizando uma técnica literária que desenvolve a estória através de cartas, notícias de jornais e etc, e que tem como objetivo dar maior realismo a obra. Ao mesmo tempo em que acompanhamos a estória presente da jovem temos trechos de livros escrito por pesquisadores do caso, assim como testemunhas em primeiro grau do caso que se intercalam juntamente com notícias de jornal e tv. Desde o início já sabemos que a estória não termina bem, mas nem por isso tudo deixa de ser interessante.

Foi muito angustiante acompanhar a estória de vida de Carrie e ver quanto uma criança que podia ser quase normal (quase por que a telecinese não é algo comum) foi transformada em uma criatura insegura, sem amigos, e sem capacidade de interação social. A vontade era de prender a mãe e permitir que a pequena menina fosse feliz. Mesmo nos momentos atuais da estória é muito cruel tudo que seus colegas de escola fazem com ela! E quando vejo estas situações de bullying, eu sempre me pergunto se existem mesmo pessoas capazes de tamanha crueldade!