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Sobre Histórias de Fadas - J. R. R. Tolkien

"A história dos contos de fadas provavelmente é mais complexa do que a raça humana, e tão complexa quanto a da linhagem humana" (Página, 27)

Essa é a primeira vez que eu faço uma resenha de alguma obra de Tolkien, logo meu nível de exigência é alto, já que é meu autor favorito entre qualquer coisa que eu já tenha lido, nada supera Tolkien S2! Será que vou conseguir transmitir 5% do que ele diz? rs.

Sobre Histórias de Fadas, de J. R. R. Tolkien, publicado pela editora Conrad não é um livro de literatura, trata-se de um livro técnico, nele encontramos dois textos que são fundamentais para compreender como e em que circunstâncias foi criado o universo ficcional de Tolkien, que aborda sua visão sobre literatura, fantasia e a criação de sua obra através do que ele chama de histórias de fadas, conhecidos por nós como Contos de Fadas.

O primeiro texto chamado "Sobre História de Fadas" explora  diversos temas como: 'O que são as histórias de fadas',  onde Tolkien nos alerta que embora o nome seja histórias de fadas boa parte destas histórias não tratam do povo féerico, e de fato se nos atermos a essas histórias poucas delas trazem em sua trama as fadas; 'A origem' onde não aparece quando essas histórias surgiram, mas qual a origem do elemento fantástico -lembrando que a principal característica do fantástico é uma vacilação diante de uma realidade que pode ter uma resposta estranha ou maravilhosa;  'As funções e valores' destas histórias, onde fica claro que estas histórias foram com o tempo sendo recontadas de forma abreviada para o público infantil, mas que tem em sua origem conteúdos adultos e de difícil elaboração até por parte de adultos, como tabus por exemplo que são colocados em questão.

Tolkien também discorre sobre a Fantasia, Recuperação, Escape e Consolo, que são elementos e funções dos contos de fadas.  A fantasia é capaz de criar quando bem realizada o que ele chama de Suspensão Voluntária da Incredulidade, o que em outras palavras é que diante de um mundo secundário aceita-se ele como se propõe, sem questioná-lo a partir de dados de nossa realidade.

"Claramente as histórias de fadas não se ocupam em primeiro plano da possibilidade, mas sim da desejabilidade" (Página, 47)

Os contos de fadas devem ser lidos por adultos como mais um 'ramo' da literatura não como uma literatura infantil..."nem brincando de ser criança, nem sendo meninos que não querem crescer". São obras de arte e devem ser admirados como tais. Ao final do texto Tolkien trabalha com o Escapismo, e sem dúvida é um dos meus trechos favoritos do texto, já que ele questiona como podem dizer que os automóveis são mais 'vivos' do que centauros e dragões.


Por que ler os Clássicos - Italo Calvino

Muitas pessoas têm preconceito ou más experiências na leitura de livros clássicos. Essa classificação em si já é polêmica e não unanime, já que trata-se de uma definição ampla. Eu depois de tanto anos de leitura sou aberta a qualquer tipo de livro, os clássicos para mim têm um gostinho especial porque sei que inspiraram pessoas que eu admiro. Logo ler Por que ler os Clássicos, do autor Italo Calvino, publicado pela Companhia das Letras é não só obrigatório como um 'clássico' no tema rs!

A obra conta com ensaios de Calvino publicados ao longo dos anos 50 a 80, e foram reunidos por sua esposa, Ester Clavino, e publicados postumamente. Todos eles com exceção do primeiro ensaio aprofundam aspectos de livros, contos e poesias que são consideradas pelo autor dentro desta categoria clássica. Os ensaios estão organizados em ordem cronológica de publicação das obras, o que é uma excelente maneira de perceber os movimentos literários que as obras fizeram parte e suas épocas, já que todos juntos são como uma breve viagem pela literatura ao redor do mundo.

Praticamente em todos os ensaios existem trechos e citações das obras em questão, o que auxilia muito na ilustração do que o autor quer trabalhar e apresenta de forma sucinta a narrativa dos autores. Embora talvez não tenha sido sua intenção, Calvino escreve tudo a partir da ótica de onde vive, a Itália, assim autores italianos são frequentes, e o impacto que as obras tiveram no país sua referência.

Italo ainda consegue ao longo de seus escritos mostrar que os livros clássicos não se propõem apenas a narrar estórias, mas a gerar pensamentos filosóficos, críticas ao modo da época, promover mudanças e causar incômodo. Não se satisfazem em descrever os personagens, pois fazem convites ao comportamento humano, com objetivos psicológicos que geram mudanças de paradigmas.

O primeiro ensaio e o mais interessante deles tem como título o mesmo nome do livro, nele o autor pontua a partir de afirmações quais seriam as principais características dessas obras. Embora seja breve, é repleto de material verídico para quem ama ler, como os efeitos da leitura dos clássicos : a vontade de relê-los, o fato de serem inesquecíveis e marcarem o inconsciente e também de provocarem uma nuvem de discursos críticos. Conta ainda com os aspectos desses livros: é um livro que nunca terminou de dizer a que veio e trazem marcas de leituras que precederam a nossa.

Na sequência cada texto se ocupa de alguma obra, a começar pelos clássicos da antiguidade como Homero, Xenofonte, Ovídio e Plínio. Já li Ilíada e Odisséia, mas as demais obras e autores citados eram desconhecidos a mim, assim fiquei muito curiosa para conhecer esses livros, em especial a História Natural, uma coleção de livros que se aprofunda em diversos temas como cosmografia, homem, animais, e etc, com relatos que parecem ter saído de um livro de criptozoologia.