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Kaori 2: Coração de Vampira - Giulia Moon

Quem lê muito e frequenta blogs literários já está habituado ao termo 'maldição do segundo livro' quando tratam-se de séries, nem sempre eles chegam a ser um fracasso, mas a quantidade de livros que tem queda na qualidade do segundo volume é muito alta. Quando começo ler um segundo volume já espero por esse problema, e quando ele não acontece eu fico surpresa, e quando eu coloco ele entre os favoritos então é de ficar mais surpresa ainda! Kaori 2- Coração de Vampira, da escritora brasileira Giulia Moon, publicado pela Giz Editorial é a raridade!

Kaori, a sedutora vampira oriental segue seu caminho agora no Rio de Janeiro, em um passeio por Copacabana acaba por esbarrar em um estranho jovem oriental que desperta seu fascínio. E agora ela deve decidir se mesmo com as feridas do passado ela pode dar uma nova chance ao seu coração.

Enquanto isso uma praga começa afetar o mundo, em especial as criaturas sobrenaturais que começam a ter comportamentos violentos deixando morte e sangue por onde passam. O IBEFF começa a agir, e Kaori se vê envolvida na ação, não só a pedido de seu amigo Takezo como também depois do sumiço de seu novo mestiço favorito. Mais do que superar velhas feridas, Kaori deverá enfrentar velhos inimigos, mas será que essa vampira conseguirá superar tantos obstáculos?

Kaori- Perfume de Vampira (1º livro) foi ótimo, me surpreendeu em suas escolhas e o pano de fundo oriental. Coração de Vampira conseguiu superar seu antecessor em todos os aspectos, inclusive nas escolhas da mitologia/criaturas japonesas. A narrativa de Moon segue em terceira pessoa, acompanhando diversos aspectos da estória em um estilo dinâmico e sedutor. A autora consegue captar de forma muito pontual os aspectos primitivos que são muito aflorados na criaturas sobrenaturais, especialmente a libido alta que determina e guia muito de seus comportamentos.

Diversas criaturas/espíritos da cultura japonesa são evocados, e eu particularmente acho que essa é uma mitologia bastante sanguinária e macabra, muito rica em detalhes e explicações. Moon consegue ao mesmo tempo juntar a esses aspectos com pitadas da mitologia brasileira, como lobisomens e botos, e a riqueza que nasce dessa fusão é muito única.

Kaori embora seja uma vampira muito antiga, ainda não conhece todas as suas habilidades. Neste volume da série ela vai aprender mais sobre si mesma, não só sobre como superar um coração partido no passado, como também sobre suas capacidades no presente. Ela é a típica vampira, embora não seja má por natureza não deixa de lado sua natureza predadora e sedutora. 

Samuel, o vampwatcher, se envolve na trama primeiro por trabalho e depois por questões pessoais. Ainda não está certo sobre seus sentimentos por Beatriz, a bióloga do IBEFF, mas uma sucessão de fatos o fará refletir sobre o que quer para si. Felipe, um vampiro que já surgiu no livro anterior sofre uma transformação bastante interessante. E o espírito que o acompanha é muito interessante, e diria fofo! Uma lenda japonesa que até é muito trabalhada em mangás/animes é explorada, e muito bem colocada!



Flores Mortais - Giulia Moon


Todos os anos tenho colocado uma meta literária quanto a quantidade de livros que gostaria de ler, esse ano foram 60, e chegar a este número não foi exatamente fácil, as vezes a rotina não deixa muitas horas para leitura. O fato é que consegui, e o livro de número 60 foi Flores Mortais, da autora nacional Giulia Moon, publicado pela editora Giz Editorial.

Esta obra é uma coletânea de contos com protagonistas femininas que incorporam traços próprios ao universo feminino com um detalhe em comum a todas elas: todas são vampiras! Bonitas, sedutoras, manipuladoras e fatais, todas estas vampiras trazem em suas histórias muito sangue e sentimento.

São oito contos no total, todos ambientados no Brasil, sendo um deles divido em seis partes, alguns deles são inéditos mas boa parte já foi publicada em outras antologias de contos da autora que quis republicá-los por algumas destas obras já se encontrarem esgotadas.

O primeiro conto é Rock'n Roses, breve ele narra uma noite na vida da vampira Rose Mistral durante uma caçada em um bar, ao mesmo tempo que tem seu dia atravessado por uma menina de rua que mexe com seus sentimentos. Por ele ser muito curto não teve um desenvolvimento muito bom, senti falta de maior densidade na história e na personagem.

Danse Macabre é quem vem na sequência, este é um conto extremamente original, porque a protagonista é a Senhorita Íris, uma vampira com uma coleção muito peculiar, ela abraça grandes nomes das artes para seres imortais, então grandes compositores, pintores e escritores compartilham suas noites, e essa ideia foi muito divertida de imaginar. Ao mesmo tempo trabalha com o gênio forte da vampira que tem que lidar com as vontades das pessoas que a cercam. É o segundo melhor conto da antologia.

Depois temos A Santa dos Meninos de Rua, onde Pipoca é um menino de rua que sonha em ter uma vida melhor, e durante a noite de Natal recebe duas propostas para sair das ruas, entretanto sua intuição lhe alerta sobre quem são essas pessoas. É um conto com espírito de conto, aquela sensação no final que um conto bem escrito dá ao você compreender totalmente o sentido do que está escrito e achar interessante.

Maya é o conto mais longo, ele que é dividido em seis partes que se passam ao longo de alguns anos. Todas estas partes são como crônicas do dia a dia desta vampira de 200 anos com seu mordomo em New York. É muito bom acompanhar a vida desta vampira rica e que não se preocupa com nada até se dar conta de seus sentimrntos. É minha parte favorita do livro!

A Dama Morcega dá sequência, e segue o clima dos antigos circos de excentricidades, já que a Dama Morcega nada mais é do que uma vampira que vive em uma jaula e é usada em espetáculos até que um médico a resgata durante um tumulto em sua apresentação, mas uma mente perturbada e um ser sedento de sangue juntos nem sempre acabam bem! É um conto que perturba um pouco, especialmente pelo modo como a jovem é tratada, a autora aborda um pouco da perturbação mental que o ser humano pode desenvolver durante suas ambições.

As Vampiras de Kenshin, é conto mais simples, ele nos conta a história de Negra Luiza uma ex-escrava vampira que realiza tarefas sob encomenda. Ela não tem muita ideia do que esperar quando parte em busca de um artista japonês desaparecido, e o que vai descobrir pode ser perturbador. Não é um conto ruim, mas também não é bom, achei ele um pouco sem sal em outras palavras.

Em penúltimo temos Dragões Tatuados, conto que deu origem à série de romances da vampira Kaori (o primeiro livro já foi resenhado por aqui), ele mostra como foram os primeiros encontros de Samuel, o observador de vampiros com a misteriosa vampira Kaori. Para quem leu o livro como eu foi complementar para história central saber como se deu esse encontro.

A exótica dama oriental e o inesperado Luar é o último conto que conta com um crossover com o personagem Luar, da série de livros do autor Kizzy Ysatis. Nos começo do século XX estes imortais se esbarram pela noite de São Paulo e tentam se conhecer e ao mesmo tempo se destruir.

A narrativa de Moon é bastante fluida ao mesmo tempo que é detalha mas sem exageros, assim você consegue imaginar a cena com detalhes suficientes ao mesmo tempo em que a ação acontece. Seus personagens são bastante interessantes, e despertam a vontade de histórias mais longas com eles.

Flores Mortais consegue através de seus contos captar e apresentar os melhores aspectos do universo vampiresco sem soar repetitivo ou monótono. É sangrento, é poético, é belo, e nos faz caminhar com estas imortais ao longo da noite sem medo do que esta por vir!


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A Torre Acima do Véu - Roberta Spindler

Sempre gostei bastante de livros de ficção nacionais, então, sempre que é possível, me pego lendo um volume deste estilo. Com este título não poderia ser diferente, e, por este motivo, passei ele na frente da minha lista de leituras. Logo me apaixonei pela escrita dessa autora e, agora, venho compartilhar com vocês todas as minhas opiniões a respeito desta obra.
Em “A Torre Acima do Véu” vemos que uma densa e venenosa névoa surgiu no mundo, causando mortes e destruição em toda a população, fazendo com que as pessoas que sobrevivessem buscassem arranha-céus para poderem viver acima da névoa, já que no solo habitam criaturas misteriosas, conhecidas como Sombras. É nesse cenário que conhecemos Rebeca (Beca), uma garota que vive com a sua família em Rio-Aires, uma megacidade que é controlada por uma poderosa organização chamada Torre, que oferece comida e proteção, pois é ela que controla todo o armamento e tecnologia que resta no mundo, em troca de obediência. Muitas pessoas foram afetadas com a névoa, e algumas acabaram desenvolvendo poderes especiais, como nossa protagonista.
Beca é uma saltadora, ou seja, sua especialidade é saltar entre os prédios, acima da neblina, e, por conta disso, tem agilidade e velocidade acima do normal. Ela trabalha com o seu pai, um ex-mergulhador da Torre, que descia para a superfície para coletar informações, e com o seu irmão, Edu, um garoto que adora tecnologia, sendo um amante da informática. Eles fazem entregas de itens necessários, por este motivo andam perto do perigo, pois vão buscar o que precisam muitas vezes perto da névoa.
Nossa protagonista se vê em uma grande aventura quando passa a ir atrás de um cubo de energia, mas não é a única que está atrás deste apetrecho, já que, aparentemente, ele contém informações sobre os seres que moram na superfície e que são conhecidos como Sombras, sendo um objeto muito importante para a Torre. Agora, ela se vê envolvida em uma busca cheia de mistérios e segredos, sendo que a vida de sua família está em risco.
Este volume é narrado em terceira pessoa, o que é bem interessante porque nos dá uma visão mais ampla da história, fazendo com que a gente consiga acompanhar tudo de uma maneira bem gostosa e de fácil entendimento. O livro é rápido e fluido, além de contar com várias reviravoltas e acontecimentos que são muito bem explicados.
A Giz Editorial fez um ótimo trabalho com a parte gráfica desta obra. A capa da minha edição ganhou uma nova roupagem e é bem bonita, mas eu acho que preferia a primeira. De qualquer maneira, a ilustração é linda, assim como as demais espalhadas pelo miolo, todas feitas por Fabio Nahon (desenhos) e André Ciderfao (arte-final), que deixam o exemplar tão maravilhoso que a gente fica com vontade de ficar folheando para admirá-lo o tempo todo. O texto está bem diagramado, com fonte e espaçamentos confortáveis para leitura. As páginas são amarelas.
Recomendo “A Torre Acima do Véu” para todas as pessoas que curtem uma boa história que mistura vários elementos, como distopia, mistérios, segredos, e ótimos personagens, em uma trama eletrizante e de tirar o fôlego. O final foi bem gostoso, nos deixando com um gostinho de quero mais, além de ter sido revelado muitos segredos. Este volume é daquele tipo que contém uma narrativa movimentada, que em todo momento temos novos elementos que não deixam a trama ficar parada nem por um segundo.
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Kaori - Perfume de Vampira - Giulia Moon

100 % das vezes que esbarro com informações da cultura japonesa eu lamento por não termos fácil acesso a sua história e cultura nas escolas, é uma pena que o ensino se foque apenas em certos momentos históricos e perca todo um universo milenar de acontecimentos, assim quando em um livro eu posso ter contato a esses fios que nunca antes tive é sempre uma experiência de imersão no tempo, que é o caso de Kaori- Perfume de Vampira, da autora brasileira Giulia Moon, da Giz Editorial.

Japão, Período Tokugawa, a partir de 1647...

Uma linda jovem dedicada a ajudar seu pai tem sua vida atravessada por uma protistuta que quer possuí-la a todo custo. Depois de ter seu pai assassinado por Missora, Kaori resolver planejar sua vingança e por isso resolve entrar para o Kinjurô, mas depois de uma noite de amor  com uma criatura da noite ela nunca mais será a mesma!

São Paulo, 2008...

Samuel trabalha pelas ruas, passa desapercebido tentando catalogar o máximo de criaturas da noite que conseguir, tem tido sucesso e acredita que não desperta atenção de ninguém até tentar salvar um garoto de rua da morte.

Kaori e Samuel, são duas realidades que se atravessam, dois tempos que se entrelaçam, uma vampira que tem um passado marcado por muito sofrimento, sangue e crueldade. Um olheiro que tem a paixão despertada por essa criatura tão bela que aprendeu as artes da sedução antes mesmo de perder sua inocência.
Moon que narrativa é esta?! É incrível o modo como a autora escolheu para escrever, ela alterna capítulos na modernidade com outros que se passam no Japão antigo. Este artifício não é inédito, mas o modo como ela apresenta a sequência dos fatos é muito inteligente e nos permite ter um panorama da história muito abrangente. Sua narrativa é feita em terceira pessoa, focado especialmente nos protagonista Samuel e Kaori. A diagramação é simples, mas cada início de capítulo conta com a marca d'água de um dragão que tem um significado especial no livro.

Kaori é uma vampira bem peculiar, embora tenha tudo para ser a típica carniceira não faz atrocidades de graça, também não fica na ideia de vampira boazinha, e isso faz dela uma criatura muito realista, onde o bem e o mal duelam a todo tempo, entre o que ela quer e o que acredita ser certo. É uma personagem muito rica em detalhes e muito bem explorada em sua sedução.

Samuel é um personagem que começa fechado, beirando a chatice, mas que consegue ter um bom desenvolvimento a medida que a ação começa e ele de fato sai de sua zona de conforto. Embora ele acredite que esteja apenas fazendo seu trabalho ele parece se esconder nas noite junto com as criaturas que observa. Conhecer Kaori fez um pequeno redemoinho em sua mente. Posteriormente Beatriz, a bióloga também é fundamental para que ele se abra para vida.

Beatriz é uma bióloga que trabalha observado os famélicos (eu nunca tinha ouvido nada sobre isso, logo acredito que seja criação da autora, são metamorfos que passam boa parte do tempo em forma de cachorros grandes, e tem inteligência limitada), é dedicada a suas pequisas, mas quando conhece Samuel também conhece o amor e perde de vista alguns de seus objetivos.

José Calixto é um pintor que atravessa a vida de Kaori no Japão antigo, é apaixonado pela arte que faz e perde a razão quando acredita em sua obra, o tempo, o perigo e toda noção de realidade se tornam um borrão quando ele está trabalhando. Conhecer Kaori o fez perder a noção do que o cercava, mas é um homem bom que teve azar.

Kodo, é o samurai escolhido para acompanhar Calixto até o Kinjurô, ele deve manter o pintor seguro até que este termine seu quadro de Missora, emburrado, aos poucos consegue entender a beleza que apenas Calixto enxergava, e encontra outros ideiais para lutar além de seu mestre.
O mais mágico e encantador da trama é passar algumas horas no Japão com sua tradição, detalhes culturais são explorados com delicadeza e profundidade. Notas de rodapé surgem ao longo do livro para breves explicações. Mas não se engane Moon é do tipo que coloca o dedo na ferida, e suas cenas de violência são cruéis e doloridas, e nem tudo termina bem em alguns momentos, e até alguns momentos aflitivos nos pegam de surpresa.

O desfecho da trama foi surpreendente, e deixou o famoso gostinho de quero mais. A autora publicou mais livros da personagem: Kaori 2, Coração de Vampira que é uma sequência e Kaori e o Samurai sem Braço que é um prequel de Kaori 2. Espero lê-los em breve e novamente viajar para esse país tão único que é o Japão!

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Amor Lobo - Crônicas de Amor, Sangue e Lobisomens

Já disse aqui e acho que até mais de uma vez que não curto lobisomens, acho que isso ficou no passado, porque tenho gostado cada vez mais de escritos sobre eles, e a culpa tem sido muito de autores brasileiros, primeiro Marcos DeBrito e agora os autores de Amor Lobo- Crônicas de Amor, Sangue e Lobisomens, organizado pela Giulia Moon e publicado pela Giz Editorial.

Neste livro encontramos 9 contos sobre esses humanos que se transformam em lobo, ou lobos que viram humanos, a diversidade de tipos encontrados nos contos é enorme, percebemos diversas influencias que fogem do clichê, a grande maioria fugiu do lugar comum e isso que fez com que os contos ficassem extremamente atraentes.

O primeiro conto que abre o livro é Prata, escrito por Rosana Rios, com uma narrativa criativa, ora narrado em terceira pessoa, ora em primeira pessoa através do diário da protagonista, conhecemos a história de Raíssa, uma jovem que terminou seu relacionamento recentemente e que decide viajar com seus amigos para uma pousada. Entretanto o que era para ser um feriado tranquilo se transforma em uma atração fatal por Zinho, funcionário da pousada. Entre uivos e a lua cheia, Raíssa terá que decidir o que fazer com seu passado para fazer um novo futuro. Com uma conclusão surpreendente, é o típico conto que nos conduz a uma solução óbvia que não se mostra verdadeira no final.

Durante Treze Sextas Feiras, da autora Nilza Amaral segue nos relatando sobre Wolfgang, um lobo que transita entre o subúrbio e encontra mais do que procura entre os becos e o metrô. A escrita começa bem, com toques filosóficos e tinha todas as características para me agradar, mas seu desenvolvimento ficou morno, o que resultou em um desfecho sem sal, o resultado não me agradou, mas também não me desagradou.

Helena Gomes, no convida em Era uma Vez, um conto de fadas onde todos os demais terminam. Ela consegue trazer uma história de como o felizes para sempre se deu, matando nossa curiosidade em como é a vida da princesa depois de encontrar seu príncipe. Ou seja, conhecemos uma rainha extremamente entediada sexualmente, e este descontentamento a leva desbravar outros horizontes e cruzar uma linha perigosa. O conto têm todas as características dos clássicos contos de fadas como a repetição dos fatos (que costumam se dar em 3 vezes), a presença de um objeto mágico, a atmosfera medieval, e um desfecho tranquilizante. Era uma Vez é gostoso, adulto e cumpre o que promete!

Seguimos com Os Desejos Proibidos, escrito por André Bozzeto Jr., se passa no Rio Grande do Sul e conta com uma narrativa recheada de trejeitos gaúchos. Valdemar recebe seu irmão Juvenal que o procura pedindo ajuda para limpar a honra de sua filha. O que estes não sabiam que o homem que cometeu este ato não é um homem qualquer, e enfrentá-lo pode significar a morte! O conto tem um clima diferente, é breve e tem um desfecho imprevisível.

Lua Redonda, escrita por Giulia Moon é o próximo conto. Nele a lua se ergue e o lobo sai em busca de sua fêmea, seguindo seu faro encontra uma casinha e uma jovem que vai realizar sua necessidade. Narrado com certa poesia, Moon nos brinda com uma 'nova' versão para o nascimento do lobisomem. O final é ótimo, e também abre outras possibilidades para interpretar o conto.

O próximo conto é A Passageira, escrito por Mario Carneiro Jr. Elise é uma criatura sem forma que transita entre os seres vivos. O limite de seu mundo é o que os animais lhe dão, sua visão o que eles vêem, assim como tudo que sente. Mas o que fazer quando o animal da vez é um Lobisomem? Quanta originalidade em tão poucas páginas!!Trabalhando com desdobramento do espírito e o lobisomem, a história é excelente e nada comum. O final não me satisfez, não por um erro, mas porque não era o que eu queria e desejava para Elise, foi muito triste.

Em Sobre o Nascer, o Pôr do Sol e o Eclipse (spin-off de seu livro Lázarus) escrito por Georgette Silen é um lindo conto de amor, narrado de forma épica, é um embrião de uma deliciosa fantasia, conta com referência a diversas mitologias clássicas (inclusive vou buscar os nomes citados porque fiquei bem curiosa!). Nele conhecemos a luta de Dragomir, que busca reconquistar a seu lugar de alpha e o amor de Nádia, depois de uma perda que marcou sua vida. É uma história mágica que me lembrou o xamanismo e seu respeito pela natureza.

A Dama e o Poeta segue, escrito por Walter Tierno, é um conto ligado diretamente com uma personagem importante de seu livro, Cira e o Velho. Conta sobre um caso de amor entre uma prostituta (A Dama) e um comunista (O Poeta). Uma história de amor em meio a ditadura, com forte dose de violência dos horrores da ditadura. Foi muito bom poder voltar a ouvir Dona Nhá, e seu modo de encarar o mundo.

Fechado a antologia Eric Novello, em Achados e Perdidos, estamos em universo urbano repleto de criaturas sobrenaturais, lobisomens, féericos e outras criaturas que estão em guerra por uma informação que Jaques, o lobisomem possui. E em meio a balas e sangue ele tenta compreender suas desventuras amorosas. O conto é bem inusitado e me despertou muita curiosidade pela história do artefato encontrado por Jaques e mais informações sobre a mitologia criada pelo autor. Terminou com gostinho de quero mais!

Destaque para o trabalho gráfico da Giz, que fez uma ótima diagramação e revisão. Todos contos são separados por pequenas fichas dos autores, seguidos por uma ilustração de lobo e uma frase do conto. Uma pena que o livro ainda não ganhou a divulgação que merecia!

Amor Lobo nos convida a conhecer histórias de amor com lobos e faz direitinho o seu papel, com contos atraentes e quentes como um lobisomem nos faz querer conhecer mais sobre diversos personagens citados. É uma ótima pedida para uma noite quente de verão.



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Cira e o Velho - Walter Tierno


"Qualquer um pode ver o futuro escrito no presente, se tiver sabedoria e a mente limpa". (Pág. 147)

Antes de começar a resenha devo contar um dado pessoal, um dos fatos responsáveis pelo meu interesse literário é o folclore brasileiro. Eu ainda era uma garotinha quando meu professor de artes resolveu ler lendas de um livro (esse aqui) com uma capa com um saci muito tentador, eu fiquei alucinada e comprei o livro. Depois disso desenvolvi um carinho muito grande pelas lendas e mitos brasileiro, então quando esbarrei com Cira e o Velho, escrito pelo autor Walter Tierno, e publicado pela Giz Editorial, foi vontade a primeira olhada!

Na trama conhecemos Cira, uma bruxa poderosa com uma beleza única que arrebata a todos que a vêem. Sua história é contada através de um admirador anônimo que busca obsessivamente informações sobre sua lenda, tudo por conta de uma figurinha de sua infância. Através da paisagem do Brasil Colônia conhecemos seu pai, Cobra Norato, sua mãe Guaracy, e toda a vingança de sua tia Maria Caninana que marca a história da guerreia. Uma história de vida que viaja entre personagens marcantes do folclore brasileiro.

É surpreendente como um livro pode nos transportar no tempo, eu me vi pequena ouvindo as histórias de Cira, e vibrando com os personagens que iam surgindo ao longo do desenvolvimento. Tierno tem uma narrativa peculiar: direta, detalhada, fria e com uma pitada de humor negro na medida que nos convida sem receios a ver as cenas como elas são, sem nos poupar dos detalhes sórdidos ou cruéis. É feita em terceira pessoa por esse indivíduo anônimo, que é revelado ao fim da trama (pelo menos eu compreendi assim =P). Outra característica marcante é a não linearidade, ela viaja no tempo a medida que a história pede por explicações.


O livro é repleto de ilustrações de traço forte feitas pelo próprio autor. A capa transmite a ideia do livro, mas gostava mais da capa da primeira edição. A diagramação foi bem feita, e conta com pequenas frases no início de alguns capítulos e pequenas espadas para dividir a narrativa.

Repleta de personagens, a história de Cira é muito rica, se apropriou muito bem da lenda do Cobra Norato para ambientar seu nascimento e história. Velhos conhecidos como lobisomens, boitatá, curupira, e etc nos brindam com sua presença e personalidade, sem efetivamente aparecerem com esses nomes. Entrelaçados com personagens escravos, inclusive do Quilombo dos Palmares e mercenários índios e brancos, torcemos pela felicidade de Cira tirada tão prematuramente.

Um destaque aos seres mitológicos, aqui eles aparecem humanizados, embora possuam os poderes por que são conhecidos, eles também se adaptaram a vida moderna e desenvolveram inclusive vícios, como é o caso do Curupira viciado em tabaco. Isso é sensacional, eu adoro quando um autor consegue trazer o sobrenatural para perto da realidade a ponto de olharmos para o lado e pensar será?

Cira é a união de opostos, é doce, atenciosa e sensível com quem ama e com quem acredita ser vítima nas situações (como é o caso dos escravos), não suporta que maltratem animais ou pessoas por crueldade. Mas ao mesmo tempo é cruel, impulsiva, meticulosa, espera o quanto for por sua vingança.

Nhá é uma das amantes de Cobra Norato, e foi companheira de Cira em suas aventuras. Uma personagem fofinha que se torna uma mulher para acompanhar e ajudar sua amiga fiel. A fidelidade entre as duas é linda, e mostra que embora tenhamos um objetivo ele não pode passar por cima de quem amamos!

Norato é uma cobra a maior parte do tempo, e age instintivamente como uma. Faz o que precisa, mas não é mal. Ao contrário, o achei ele até muito bonzinho diante de todas as desventuras que sua família sofreu.


Dizer que esse livro é único é chover no molhado, embora tenhamos um folclore rico e detalhado poucos autores se apropriam dele, ou o usam como pano de fundo. Uma pena! Que bom que Cira e o Velho estão ai para resgatar essa atmosfera única, em um tempo que desconfiamos conhecer mas que nada sabemos, sobre um povo que é nós também mas fingimos não nos pertencer. Leiam, o folclore brasileiro agradece!

SORTEIO
O autor walter nos cedeu 1 marcador autografado do Livro Cira e o Velho, para ganhar basta:

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>>> Comentar nesta resenha (com meio de contato) com conteúdo sobre o livro, qual sua relação com o folclore brasileiro?
>>> Comentar na entrevista do Walter Tierno aqui para o House.

O sorteio vai ser feito no dia 21.03.2014. Boa sorte!!

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Anardeus - No Calor da Destruição - Walter Tierno

O ser humano é um bicho estranho é capaz de despertar coisas maravilhosas e ao mesmo tempo terríveis, é capaz de atos extraordinários e aterradores, é deus, é o diabo, mas ultimamente tem gostado muito do lugar cômodo de vítima do destino e não se move nem com o mundo caindo sob suas cabeças. Pessimismos a parte essas reflexões partiram da leitura do livro Anardeus - No Calor da Destruição, do autor Walter Tierno, publicado pela Giz Editorial.

A sinopse será um verdadeiro desafio, mas vamos lá tentar contar o que o livro apresenta. Anardeus é um homem marcado, nasceu feio e estranho e desde que abriu os olhos desperta repulsa nas pessoas ao seu redor, o que acaba o transformando em um indivíduo ignorado. É irmão gêmeo de Isabel, a bela mulher que a todos desperta paixão.
Desde pequeno sente um frio incontrolável que só se acalma quando ele é testemunha de catástrofes ao seu redor. Perante este fato e o ódio crescente que sente pela raça humana, Anardeus começa seu próprio Apocalipse, sem dó, São Paulo é palco de um história de sangue.

Anardeus é um personagem interessantíssimo do ponto de vista psicológico, marcado pelo trauma do abandono, age no mundo como se nada quisesse dele ou como se nada importasse, quando o processo é bem o contrário. O abandono que sofre não é o físico, ele tem uma família torta boa parte do tempo, o que sente é o vazio do não amor. A falta de um olhar carinhoso, de um bem querer, e mais de alguém que o veja, simples assim.

É um personagem complexo que renderia um post inteiro sobre sua maneira de existir funcionar e tentar sobreviver ao seu próprio inferno. É um anti-herói que sonha em ser herói no seu inconsciente. A criança que pede compreensão age a cada lugar destruído, como um brinquedo que não funciona mais, não consegue lidar com uma memória ruim? Destrua-a! Esse é o jeito de ser dele. Não consegue desenvolver laços sociais com ninguém além da própria irmã. Trata as mulheres como objetos e tem a libido extremamente alta e nada controlada, talvez porque nesse momento seja objeto de desejo e olhar.

"...Sou esquisito, diz ela. Sinto-me ofendido. Sou bem mais que isso. Sou quem deseja faz acontecer. Quem se banha no calor da aniquilação. É o que desejo agora e sei que vai acontecer. Sou eu quem provoca, sei que sou". (Pág. 73)

Isabel sua irmã é a imagem da perfeição, bonita, sociável, parece se encaixar bem na vida. Mas na verdade é tão perturbada quanto o irmão. Gosta de brincar com as situações (maiores explicações implicariam em spoiler =P) e é cruel com quem lhe contraria. Alimenta ilusões perturbadoras no irmão, quer tê-lo a adorando.


O fotografo surge quase no meio da trama como alguém que assiste as ações da dupla, inicialmente se aproveita da situação e ganha com os acidentes, depois assim como toda a população passa a ser vítima.

A narrativa é feita em primeira pessoa sob o ponto de ora de Anardeus, ora do fotografo e em um único capítulo de Isabel, essa variação permite uma visão completa da situação. A diagramação é com letras maiores e com um espaçamento maior, além de contar com algumas ilustrações. Assim como em seu livro anterior não há linearidade de tempo, a história vai e volta o tempo todo pela vida de Anardeus, e como em Cira e o Velho trabalha a vingança do protagonista diante do que lhe fizeram.

Têm uma forte crítica social, jogando de forma crua verdades sobre os comportamentos deploráveis do ser humano, causando diversas reviravoltas no estômago. A história é marcada por muita violência e sexo. Tudo é muito direto, simples e como um chute na cara! O uso de palavrões é constante pois ajuda a transmitir os sentimentos dos personagens. Pode não agradar a todos, mas é honesto e sincero, deveria ser lido minimamente para despertar reflexão.

Não há dúvidas quanto a qualidade da obra, é um livro inteligente, que trabalha com a sombra humana em sua extremidade. Quantos são desprezados por não se encaixar nesta sociedade capitalista do espetáculo, quantos fazem disso combustível para agir? Alguns conseguem sublimar, transformar, outros não conseguem e atacam aquilo que lhes incomoda.


É incômodo, repleto de humor negro e viceral, mas Anardeus - No Calor da Destruição é um conto de fadas as avessas que nos vem contar sobre uma história de não amor pode gerar caos como um efeito borboleta. Leia, perturbe-se e cresça!


TRILHA SONORA - BEHEMOTH - The Satanist (O livro pediu por algo apocalíptico rs!).




SORTEIO
O autor walter nos cedeu 1 marcador autografado do seu livro, para ganhar basta:

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O sorteio vai ser feito no dia 14.03.2014. Boa sorte!!

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In Our Living Room - Walter Tierno




Na Coluna In Our Living Room de hoje conhecemos um pouco mais sobre o autor Walter Tierno, autor dos livros Cira e o Velho; Anardeus - No calor da Destruição, publicados pela Giz Editorial.

Sobre o Autor: É formado em Jornalismo e trabalhou com publicidade durante quase vinte anos. Ilustrador, artista gráfico e escritor, seu livro de estreia é Cira e o Velho. Também publicou contos nas coletâneas "Amor Lobo" e "Mitos Modernos". Vive em São Paulo com sua esposa, filha e gatinhos.

Canal para se comunicar com o autor e saber mais sobre seus livros e trabalho: Site | Facebook | Twitter .

Os livros são conhecidos estranhos até que alguém nos apresente e nos conduza aos seus mundos, despertando em quem permite um vício jamais abandonado. Quem foi que lhe apresentou a esse universo literário? Qual autor e obra que marcou sua vida literária?

Aprendi a gostar de literatura por imitação, creio. Meu irmão tinha o hábito de visitar bibliotecas. Ele é seis anos mais velho. Eu acompanhava. Ao mesmo tempo, na escola, fui apresentado à coleção vagalume. Muita gente da minha geração pegou gosto pela leitura com essa coleção. Não sei apontar uma obra específica lá na gênese de meu gosto pela leitura. Sei que, mais tarde, já adolescente, quando me apaixonei definitivamente por quadrinhos, nomes como Neil Gaiman, Alan Moore e Frank Miller me fisgaram.

Acompanho já têm alguns anos seu trabalho de resenhas e comentários sobre quadrinhos. Gostar e ler tantos quadrinhos reflete e influencia na sua narrativa? O que muda para você no momento de criar um romance e um quadrinho do ponto de vista da criação da história?

Não que a linguagem dos quadrinhos me influencie tanto. Observe que, dos três nomes que mencionei na pergunta anterior, dois já lançaram romances. Neil Gaiman, inclusive, é conhecido pelo grande público muito mais por seu trabalho como escritor de prosa. Uma coisa interessante, aliás, é que já houve quem dissesse que percebeu influência de roteiro de HQs em Anardeus. Achei sensacional, mas a verdade é que minha influência, nesse caso, veio de textos de teatro. Na hora de criar uma história, aquele “tlim” que começa tudo, não costumo saber se a coisa vai se desenvolver melhor para prosa ou roteiro de quadrinhos. Deixo para descobrir isso depois. Até agora, tem apontado para a primeira opção, então, tenho seguido como escritor. Quando surgir uma nova HQ, vou fazer... e me desesperar, porque dá muito mais trabalho!

Os protagonistas de suas histórias são profundos e bem estruturados, como é o processo de criação? Eles nascem primeiro e a partir deles a história ou o contrário? Quais as referências que lhe auxiliam nesse processo?

Geralmente, os personagens nascem primeiro sim e eu os solidifico durante o processo de criação da história. E aí, talvez, seja o ponto em que ser ilustrador influencie, porque crio os personagens visualmente, antes mesmo da história. As referências são variadas, nunca fechei um processo único para isso. Acho que são as mesmas que norteiam todo meu trabalho.

Cira e o Velho é repleto de referências sobre o folclore brasileiro, qual foi sua fonte de pesquisa? Não encontrei referências a Cira, é uma criação sua ou existe em alguma mitologia brasileira? Na sua opinião porque o folclore brasileiro é tão pouco explorado pelos autores da literatura fantástica?

Tive várias fontes de pesquisa, mas nunca busquei fazer um tratado. Sempre foi uma obra de ficção, portanto, entre minhas fontes, escolhi algumas obras como diretrizes principais. Para a parte mitológica, me baseei nos trabalhos de Câmara Cascudo e no dicionário tupi-guarani de Silveira Bueno. Cira não existe em nenhum trabalho de pesquisa sobre folclore porque tanto ela quanto Guaracy, sua mãe, são criações minhas.
Realmente, entre os autores de literatura fantástica com que tive contato, percebi, na maioria, até mesmo resistência a temas brasileiros. Não que sejam obrigados a um ufanismo tosco, cada um escreve sobre o que se sente confortável, a diferença está entre conseguir ou não convencer o leitor. Não sei apontar uma razão para isso. Talvez por fazerem parte de uma geração que foi fortemente influenciada por cinema e literatura importadas, principalmente dos EUA e da Inglaterra. Talvez alguns até acreditem que têm que se adequar a um dito “mercado” que não aceita folclore brasileiro. Eu realmente não saberia dizer, porque nunca tentei levantar dados a respeito. Eu vou escrevendo sobre o que consigo e me sinto confortável e espero que os colegas estejam fazendo o mesmo. Mas existem alguns autores que sei que já voltaram seus olhos aqui para o Brasil. O americano Christopher  Kastensmidt, que escreve contos para publicações norte americanas e Felipe Castilho, que escreve um juvenil usando videogames e folclore brasileiro são dois exemplos. Também tem uma autora que está começando a fazer um barulho bacana, que é a historiadora Nikelen Witter. Também tem o Rober Rodrigues, que usa elementos do folclore nacional. Pensando bem, até que tem bastante gente voltando os olhos para o folclore nacional...

Anardeus é um livro com uma veia crítica muito acentuada, item ausente em boa parte dos livros lançados hoje, qual é o papel do livro para você? Um item de entretenimento, um convite a reflexão e a crítica, ou apenas uma manifestação da sublimação do autor?

Para mim, o livro realmente bom é aquele que, pelo menos, tenta juntar tudo isso que você disse. Não necessariamente de forma equilibrada.

Após ler Cira e o Velho, e Anardeus percebi um tema em comum em ambos que é a vingança, isso se deu por coincidência ou foi algo que se deu inconscientemente? Ambos personagens em certa altura constatam que a vingança não resolve o vazio interior que possuem, qual sua relação com o tema?

Provavelmente foi inconsciente, porque até você levantar essa questão, eu não havia pensado dessa forma sobre eles... Eu realmente tenho fascínio pelo tema. Como a vingança parece importante para quem a busca e como ela é frustrante quando alcançada.

Em todos os textos que li de sua autoria têm algum fato histórico brasileiro, Cira trabalha com a escravidão, Anardeus com as diretas já e A Dama e o Poeta com a ditadura, porque estes momentos marcantes foram escolhidos?

Não há razão específica. Eu apenas escolhi momentos interessantes. Em Cira, fascinou-me um dos momentos mais marcantes da história dos bandeirantes paulistas, principalmente a figura de Domingos Jorge Velho. Em Anardeus, foi um momento até recente, que foram as manifestações que derrubaram o presidente Collor. Em A Dama e o Poeta, eu visitei um período sobre o qual ainda quero escrever mais coisas, que é a ditadura militar. Tento sempre puxar algum momento histórico porque me assusta a pouca memória que muita gente demonstra. Vejo pessoas clamando por intervenção militar. Parece que esqueceram o que é realmente estar sob uma ditadura militar.

Lançar um livro no Brasil é um trabalho difícil e delicado, o mercado editorial brasileiro parece ainda engatinhar, e não dar espaço para autores brasileiros. Qual sua opinião a respeito dele, dos autores brasileiros e como foi a publicação de seus livro?

Ouço um discurso recorrente – e não é só de leigos, muito pelo contrário –, que cobra uma profissionalização do mercado brasileiro. Profissionalização nos moldes anglo-americanos, aliás. Mas a galera esquece que estão tentando encaixar uma peça redonda num buraco quadrado (ou vice versa). Há uma diferença cultural a ser levada em conta. Para começar, o brasileiro não lê. O aumento médio de leitura não acontece só por aumento de público leitor. Tem uma parcela pequena da população que consome muito livro. 50 Tons, por exemplo. Certeza que a maioria das pessoas que compraram não lerão outro livro no mesmo ano. Números não são tão exatos quanto se pensa. Muitos leitores formados por um modelo de literatura não prosseguirão em busca de obras melhores ou temas diferentes. Essa é a triste verdade. “Pelos menos estão lendo” é só um paliativo para uma luta bastante difícil. O público não segue um padrão estável. Isso é maravilhoso e assustador, ao mesmo tempo. Sobre as editoras, vejo uma bateção de cabeça interminável. Reclamam que os autores que escrevem bem não fazem livros mais comerciais e que quem faz livros comerciais não escreve bem. Uma bipolaridade que não se destrava. As editoras precisam começar a investir num modelo de literatura bem feita, comercialmente atraente e sem ficar se fiando em celebridade pronta. Conheço poucas editoras que tenham um projeto desses. Concordo que livro é um produto. Mas é um produto cultural, não é um pacote de biscoitos. Tem que ser tratado com respeito.

Para o futuro o que podemos esperar de seus lançamentos? Algum de seus livros vai ter uma continuação ou desdobramento?

Estou escrevendo um juvenil, agora e pretendo fazer uma adaptação de um clássico do teatro para quadrinhos. Atualmente, estou trabalhando como editor na Giz e correndo atrás para ajudar a editora a entrar em alguns mercados inéditos para ela, como o selo GiBiz, de quadrinhos. Anardeus certamente não terá uma continuação. Pelo menos, não vislumbro nada mais a ser dito sobre ele. Cira, talvez, tenha um novo livro. Mas não tão cedo. Depois desse juvenil que estou escrevendo, quero voltar a outro livro adulto que tenho na cabeça.

Em nome do House of Chick agradeço seu contato e a entrevista, fique a vontade para adicionar qualquer informação que queira compartilhar conosco!

Eu é que agradeço. Obrigado pela oportunidade.